Violência sexual contra jovens no Amazonas cresce 99% em quatro anos
Levantamento inédito aponta 3.164 notificações em 2025, recorde da série histórica, com taxa de 208,6 casos por 100 mil habitantes.
A assistente social da Unidade Básica de Saúde do Compensa, na zona Oeste de Manaus, preenche a ficha de notificação de violência sexual contra uma adolescente de 15 anos na manhã desta terça-feira. Ela sabe que, ao digitar aqueles dados no sistema da Secretaria Municipal de Saúde, está adicionando mais um número a uma estatística que assusta o Amazonas. E o boletim que chegou ontem (26) confirma o que ela vê no dia a dia: a violência contra crianças e adolescentes não para de crescer.
Os números da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-RCP) mostram que os casos de violência sexual na faixa etária de 0 a 19 anos aumentaram 99% em quatro anos. Saímos de 1.585 notificações em 2021 para 3.164 registros em 2025, o maior índice da série histórica do estado. A taxa de prevalência chegou a 208,6 casos para cada 100 mil habitantes nessa faixa etária.
"A ampliação das notificações representa um forte conjunto de fortalecimento da vigilância. Isso significa que mais casos estão sendo identificados e encaminhados para atendimento", explicou Tatyana Amorim, diretora-presidente da FVS-RCP, na divulgação do levantamento na segunda-feira (25).
Para os profissionais da rede, esse crescimento significa, em parte, que o silêncio está quebrando. Médicos, enfermeiros e professores estão mais treinados para identificar os sinais. Na UBS do Compensa, o protocolo é claro: qualquer suspeita vira uma notificação compulsória no sistema. "A gente não vê mais só a fratura óssea ou a infecção. A gente pergunta 'como isso aconteceu?'", conta a técnica de enfermagem que atende na pediatria.
O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) de Manaus tem visto a fila de atendimento aumentar. Psicólogos do local relatam que muitos casos chegam após a revelação feita na escola. O ambiente escolar se tornou um dos principais aliados na identificação do abuso, pois é onde a criança passa grande parte do tempo e onde mudanças de comportamento são percebidas por professores. O levantamento reforça a importância de treinar o olhar do educador.
Mas a vigilância em saúde alerta para um novo vetor de violência: o ambiente digital. O uso desacompanhado de celulares e computadores por crianças tem facilitado o aliciamento e a exposição de imagens. O boletim aponta que a notificação é a porta de entrada para a proteção, mas a prevenção começa dentro de casa, com o controle parental e a educação sexual. A diretora da FVS também destacou que a melhoria na qualidade dos dados permite ao governo planejar ações mais efetivas.
O levantamento da FVS-RCP cobre todo o estado e inclui dados tanto da capital quanto do interior. Manaus concentra grande parte das notificações devido à densidade populacional e à maior rede de atendimento, mas municípios do interior também apresentam taxas alarmantes. O medo é de que, mesmo com mais notificações, os números subnotificados ainda sejam altos, principalmente em comunidades ribeirinhas onde o acesso à saúde é difícil.
O trabalho agora é de articulação entre a Vigilância Epidemiológica, o Conselho Tutelar, a Polícia Civil e o Ministério Público. Quando a notificação entra no sistema, ela aciona uma rede de proteção que deve garantir o atendimento da vítima e a responsabilização do agressor. Nem sempre a rede responde na velocidade necessária, mas o registro é o primeiro passo.
Quem suspeita de algum caso de violência sexual contra crianças e adolescentes deve fazer a denúncia. O canal principal é o Disque 100, que funciona 24 horas por dia, anonimamente. Em Manaus, o Conselho Tutelar pode ser acionado pelos telefones (92) 2128-4401 e (92) 2128-4402. Denunciar pode salvar uma criança do Compensa, do Educandos ou do interior da floresta.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



