Humorista Willian de Oliveira recebe Medalha de Ouro da Câmara de Manaus
Em solenidade na Câmara, humorista é homenageado por carreira que retrata o Amazonas profundo e luta para levar comédia ao interior sem amarras políticas.
O silêncio antes da risada é o instante que Willian de Oliveira domina como ninguém. É aquele segundo suspenso no ar úmido de Manaus, onde o suor congela na testa de quem espera o 'tchan' da piada, e onde a madeira cediça do tablado — seja num centro comunitário de Coari ou no palco de um teatro de bairro — range baixo, como se o próprio chão estivesse segurando a respiração antes da explosão de alívio. Foi sobre esse tempo de palco, forjado no calor e na poeira da estrada, que repousou o peso da medalha em seu peito nesta quinta-feira (18).
A solenidade no plenário da Câmara Municipal de Manaus (CMM) tinha o cheiro característico de cera e buquê de flores de cerimônia pública, mas o destino da honraria era um homem construído na informalidade do pátio. Willian de Oliveira recebeu a Medalha de Ouro Rodolpho Valle, a mais alta distinção da Casa de Leis Municipal, não pelo traje que vestia, mas pela trajetória que carrega nas costas: a de um humorista que decidiu não deixar que a comédia ficasse presa às margens do Rio Negro, limitada à capital de concreto e ar-condicionado.
Nascido no bairro da Compensa, Willian, de 37 anos, tem o rosto de quem viu de tudo e a boca de quem conta o viu sem perder o charme. Ele é aquele artista que pega o chiste universal e o tempera com o uso do 'ioiô' no futebol de várzea ou a dificuldade de pegar o 'Regional' na hora da chuva. Em seu discurso, a voz falhou um pouco, não pelo nervosismo de quem fala para vereadores, mas pelo peso da lembrança de quantas vezes ele teve que desistir de uma data no interior por falta de patrocínio ou estrada interditada.
A cultura de resistência no Amazonas se faz assim: no vai e vem de barcos e na insistência de quem acredita que o humor é um direito do povo, não um produto de prateleira para turistas de navio. O humorista usou a tribuna para despejar uma crítica ácida e necessária sobre a captura de ações culturais pelo clientelismo político. "Quero levar a comédia aos 62 municípios sozinho, independente", disparou, enquanto os aplausos soavam mais como concordância silenciosa do que reverência à instituição.
O trabalho dele dialoga com o que estudiosos da cultura popular regional chamam de identidade amazônida: a formação que acontece na confluência, na mistura do caboclo da cidade com o ribeirinho que desce o rio. Willian retrata o funcionário público que enfrenta a ponte do Rio Negro todo dia e o jovem da periferia que usa o humor como escudo contra a falta de perspectiva. Suas personagens não são caricaturas rasas; são retratos afiados, desenhados com a precisão de quem observou a vizinhança a vida inteira e entende que rir da própria realidade é a primeira forma de transformá-la.
A Medalha Rodolpho Valle foi criada em 1969 e já ornou o peito de escritores e médicos, mas ver brilhar o ouro sobre a camisa de um comediante que fala do povo é um sintoma de que a Câmara, pelo menos por uma noite, entendeu onde o pulso da cidade bate. A cerimônia contou com presença de familiares e outros artistas, num misto de formalidade e a alegria desbundada que é a marca registrada da noite manauara.
Quem quiser conferir ao vivo o timing de Willian de Oliveira e entender por que ele merece o bronze, o prata e o ouro, ele se apresenta neste sábado (20), às 20h, no Teatro Amazonas, no espetáculo "Risada na Floresta". Os ingressos podem ser retirados na bilheteria do teatro e, como ele mesmo disse, a intenção é que o som da gargalhada ecoe muito além das paredes do suntuoso edifício da época da borracha.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



