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Açaí representa um terço do valor agrícola do Amapá, aponta IBGE

Com valor de produção saltando 80%, o fruto respondeu por R$ 92 milhões no ano passado, superando o extrativismo tradicional em área plantada.

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Renato Lobo
Amapá · AM
18 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 581 palavras
Colhedores retiram frutos de palmeiras de açaí manejadas em comunidade rural do Amapá.
Com valor de produção saltando 80%, o fruto respondeu por R$ 92 milhões no ano passado, superando o · Foto: Redação Nortícia

O Valor da Produção Agrícola (VPA) do Amapá saltou para R$ 270 milhões em 2025 — uma expansão nominal de 80% sobre o ano anterior, impulsionada por uma reconfiguração no manejo dos recursos florestais. Segundo o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) e dados da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) divulgados nesta quarta-feira (17) pelo IBGE, o açaí deixou de ser apenas coleta para se tornar o carro-chefe da agricultura estadual: o fruto gerou R$ 92 milhões em valor, o equivalente a 34% de todo o PIB agrícola do estado.

Para colocar em escala, enquanto o agronegócio brasileiro é guiado pela soja e pelo milho no Cerrado e no Sul, o Amapá consolida um modelo de economia florestal. Os 30 mil toneladas produzidas no estado significam que, pela primeira vez na série histórica recente, o cultivo conduzido — aquele feito com poda e manejo de palmeiras plantadas — superou em área o extrativismo puro. "O diferencial foi a inclusão do cultivo conduzido, que impactou diretamente o PIB agrícola do Amapá", destacou o pesquisador do IBGE, Raul Tabajara, em nota técnica.

O dado revela uma mudança estrutural importante: o produtor ribeirinho está migrando da coleta aleatória para a agricultura de baixo carbono intensiva em mão de obra. No entanto, a concentração em um único produto apresenta riscos clássicos de monocultura. Se o açaí responde por um terço da riqueza, qualquer oscilação climática — como a seca que atingiu os rios do Norte em 2025 e 2026 — ou variação cambial no mercado internacional afeta desproporcionalmente a economia local.

Há ainda um paradoxo logístico que chama a atenção na análise de Renato Lobo. Apesar de produzir 30 mil toneladas e exportar o excedente, o Amapá ainda é importador líquido para o consumo próprio. Segundo o levantamento, 45% do açaí consumido internamente no estado vem das ilhas do Marajó, no Pará. Isso indica que a cadeia produtiva local ainda não capturou o mercado doméstico, provavelmente devido a gargalos de escoamento ou priorização da produção para pátios de beneficiamento que atendem outros estados e países.

A segunda cultura em relevância no estado permanece sendo a mandioca, com R$ 63 milhões em valor gerado. A raiz continua sendo a base da segurança alimentar local, mas perdeu espaço relativo na pauta de exportação quando comparada à fruta. O salto do VPA total de R$ 150 milhões para R$ 270 milhões, embora expressivo, precisa ser lido com cautela: parte desse aumento é fruto da recomposição de preços após a inflação de alimentos de 2024/2025, não necessariamente um aumento volumétrico de 80% na quantidade colhida.

Tecnicamente, a transição do extrativismo para o cultivo conduzido permite uma previsibilidade de safra que antes não existia. Enquanto o açaí de floresta nativa depende do ciclo natural de enchente e vazante, o plantio manejado permite irrigação controlada e adubação, o que tende a elevar a produtividade por hectare nos próximos anos. Isso pode transformar o Amapá em um polo de fornecimento estável para indústrias de polpa e cosméticos, reduzindo a dependência das flutuações do mercado de Belém.

A expectativa do setor é que o crescimento da área cultivada continue acelerado em 2026, embora os analistas já monitorem o custo dos insumos e o preço do frete fluvial, que pressionaram a margem do produtor no primeiro semestre. A próxima divulgação dos indicadores de safra pelo IBGE, prevista para setembro, deve confirmar se o investimento em manejo está convertendo-se em renda efetiva para as famílias produtoras ou se ficou apenas no papel do aumento de área.

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◆ Repórter · Nortícia Economia

Renato Lobo

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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