Daabon assume controle da Agropalma e inicia operações de óleo de palma no Pará
Grupo colombiano finaliza aquisição e promete investimentos na cadeia produtiva paraense, incluindo unidades em Tailândia e Belém.
O grupo colombiano Daabon concluiu a aquisição da Agropalma nesta terça-feira (16), assumindo o controle integral da principal produtora de óleo de palma do Brasil. O valor da transação não foi revelado — prática comum em operações de portas fechadas entre privados de porte, mas o movimento marca a entrada definitiva do capital sul-americano no chamado 'polo do dendê' paraense. A estrutura que migra de mãos inclui as seis indústrias de extração em Tailândia, no nordeste do estado, e a refinaria localizada em Belém, garantindo à Daabon o domínio da cadeia produtiva desde a lavoura até o óleo refinado na região Norte.
Para colocar em escala: o Pará responde por mais de 90% da produção nacional de dendê. A Agropalma, sozinha, detém uma fatia expressiva desse mercado, operando em uma área que mistura plantação e reserva florestal. A chegada de um player como a Daabon, que tem expertise em produção certificada na Colômbia, sugere uma estratégia de alavancagem das exportações do Norte para mercados exigentes em sustentabilidade, como a União Europeia. Enquanto o agronegócio brasileiro centraliza-se no Centro-Sul com soja e milho, a palma é o único grande commodities em que o Norte tem vantagem comparativa climática absoluta.
Vale notar, contudo, a desenção patrimonial da operação. A refinaria de Limeira, no interior de São Paulo, não integrou o negócio. A unidade paulista, que dava acesso ao mercado consumidor mais rico do país, agora opera sob a denominação Indústrias Xhara, vinculada ao grupo APAR Holdings. Na prática, a Daabon assume o 'chão de fábrica' na Amazônia (extração e refino local), mas fica sem o braço de industrialização final no Sudeste. Isso pode significar uma dependência maior da logística de exportação via portos de Belém ou Vila do Conde, em vez de escoar o produto para o mercado interno via rodovias.
Em nota, a nova controladora informou que a fase atual prevê 'investimentos no estado, fortalecimento de parcerias com a comunidade e ampliação de ações voltadas à produtividade dos próprios palmeirais'. Traduzindo para a economia local: o foco deve ser o aumento da eficiência agrícola nas áreas já plantadas nos municípios de Tailândia, Tomé-Açu e Moju. O setor de óleo de palma é intensivo em mão de obra, e ganhos de produtividade geralmente impactam diretamente a renda dos agricultores familiares fornecedores, peça-chave da cadeia produtiva do dendê no Pará.
O mercado observa agora se a injeção de capital estrangeiro acelerará a maturidade das palmeiras — que levam cerca de três anos para iniciar a produção plena — ou se haverá movimentação de expansão de fronteira agrícola. É um ponto delicado, dado o rigor do Código Florestal em áreas de floresta na Amazônia. A Daabon é reconhecida internacionalmente por sua pegada de sustentabilidade, o que pode servir de anteparo contra pressões ambientais, mas também impõe um teto na velocidade de expansão horizontal da área plantada. O próximo balanço da Associação Brasileira de Produtores de Óleo de Palma (Abrapalma), previsto para o terceiro trimestre, será o primeiro termômetro do impacto dessa nova gestão nos volumes colhidos no Norte.
Renato Lobo
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



