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Dívidas das famílias acreanas voltam a crescer em maio, aponta Fecomércio

Levantamento mostra 109 mil famílias com débitos e aumento na parcela de consumidores sem condições de pagar, interrompendo queda de dois meses.

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Renato Lobo
Acre · AM
18 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 582 palavras
Pessoa segura cartões de crédito e calculadora em mesa de escritório.
Levantamento mostra 109 mil famílias com débitos e aumento na parcela de consumidores sem condições · Foto: Redação Nortícia

O número de famílias acreanas com dívidas voltou a subir em maio, atingindo 109.204 lares — um aumento de 1,2% frente aos 107.877 de abril, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da Fecomércio-AC. O dado interrompe uma sequência de dois meses de queda no indicador e expõe um cenário de fragilidade financeira crescente, mesmo com a leve redução nos atrasos de pagamento.

Para colocar a questão em perspectiva: o aumento do estoque de dívidas ocorre concomitantemente a uma piora na capacidade de pagamento. Enquanto o total de famílias com contas em atraso caiu marginalmente 0,1% na comparação mensal, a parcela de consumidores que declararam não ter condição nenhuma de quitar os débitos saltou 2,85% no mesmo período. É o clássico sinal vermelho da economia doméstica: o devedor acumula obrigações novas e renegocia antigas, mas a margem de manobra na renda encolhe.

O perfil do endividamento no Acre acompanha uma tendência nacional que se agrava na Região Norte devido à estrutura de custos. Diferente do Centro-Sul, onde o peso da hipoteca é maior, no Norte o comprometimento de renda com o cartão de crédito e o cheque especial — linhas com as taxas de juros mais altas do sistema financeiro — é preponderante. Com a inflação de serviços pressionando o bolso do trabalhador de Rio Branco e do interior, o uso do crédito rotativo torna-se uma válvula de escape perigosa para o orçamento familiar.

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) é um termômetro importante porque mede a intenção de consumo e a confiança. Quando o índice sobe, o comércio varejista tende a segurar investimentos e estoques para o segundo semestre, antecipando uma demanda mais fraca. A Fecomércio-AC nota que, apesar da retomada leve da atividade econômica no estado no primeiro trimestre, este ganho ainda não se traduziu em poder de compra real para a base da pirâmide.

É preciso desconfiar de otimismo prematuro com a queda pontual no número de famílias com contas em atrasos. Tecnicamente, isso pode indicar apenas uma troca de perfil: o consumidor inadimplente de curto prazo se tornou um inadimplente de longo prazo ou renegociou a dívida, saindo do contador de 'em atraso' para entrando na lista de 'sem condição de pagar'. Do ponto de vista contábil da família, a situação não melhorou; a dívida apenas mudou de casa no balanço.

Comparado à média do Brasil, onde as taxas de juros começaram a mostrar um ciclo de corte mais agressivo, o Acre sofre com a defasagem na transmissão desse crédito mais barato para o consumidor final. O spread bancário na Amazônia permanece elevado, encarendo o financiamento de bens duráveis e forçando o consumidor a depender do limite do cartão — que é a porta de entrada para o endividamento crônico.

O próximo passo da economia acreana dependerá menos da oferta de crédito e mais do comportamento da inflação local. Se o preço da cesta básica e dos combustíveis se estabilizar, as famílias poderão retomar o pagamento do principal das dívidas. Caso contrário, o cenário é de 'juros sobre juros' em um momento em que a renda nominal não acompanha o ritmo dos reajustes.

A próxima divulgação do PEIC, referente a junho, será crucial para confirmar se maio foi uma oscilação estatística ou o início de uma nova curva ascendente de inadimplência no estado. O calendário do Banco Central para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em julho, também será um fator determinante para as taxas praticadas nos bancos locais.

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◆ Repórter · Nortícia Economia

Renato Lobo

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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