ed. #022
nortıcia
nortícia · política · pará
Nortícia PolíticaCusto do Monitoramento

Alepa aprova projeto que transfere custo de tornozeleiras a agressores no Pará

Texto aprovado pela Alepa determina ressarcimento ao Estado pelo uso dos equipamentos em medidas protetivas, isentando a vítima.

e
Eliana Castro
Pará · AM
27 de mai. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 616 palavras
Plenário da Assembleia Legislativa do Pará durante sessão de votação do projeto de lei.
Texto aprovado pela Alepa determina ressarcimento ao Estado pelo uso dos equipamentos em medidas pro · Foto: Redação Nortícia

A Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) aprovou nesta terça-feira (26) um projeto de lei do Executivo que transfere aos agressores o custo das tornozeleiras eletrônicas usadas em medidas protetivas de urgência. A matéria, enviada pelo governo estadual, passou em turno único com ampla maioria e segue agora para sanção da governadora Hana Ghassan (MDB).

A decisão visa aliviar o tesouro estadual de uma despesa que cresceu cerca de 70% no último biênio, ao mesmo tempo em que amplia a rede de proteção à mulher sem onerar as vítimas financeiramente. O texto determina o ressarcimento integral pelo uso do aparelho, além de responsabilizar o usuário por danos, perda ou extravio do equipamento.

Atualmente, o Pará gasta aproximadamente R$ 3,4 milhões anuais com o sistema de monitoramento eletrônico, segundo dados levantados pela Comissão de Finanças da Casa. Desse total, 60% correspondem à taxa de monitoramento mensal cobrada pela empresa contratada, enquanto o restante cobre manutenção e substituição de peças. A nova regra prevê que este valor seja recuperado diretamente do agressor.

A proposição não se limita à violência doméstica. O texto aprovado estende a obrigação de pagamento a investigados, acusados, presos ou condenados que utilizem o monitoramento eletrônico em qualquer fase processual penal. A regra não se aplica, contudo, quando a insolvência do agressor for comprovada, hipótese em que o Estado assume o custo para garantir a eficácia da medida protetiva.

A votação contou com 32 votos favoráveis e apenas duas abstenções, ocorrendo em ambiente de consenso entre bancadas de situação e oposição. O relator, deputado Júnior Rocca (Progressistas), destacou que a medida corrige uma distorção fiscal. "Não é justo que o contribuinte paraense pague pela prisão domiciliar ou vigilância de quem tem patrimônio e renda para arcar com isso", argumentou o parlamentar durante a sessão.

Dados da 9ª Coordenadoria de Polícia Especializada indicam que há 1.250 tornozeleiras ativas no Pará. A procura pelo dispositivo cresceu 15% após a implementação da Lei 14.188/2021, a "Lei Mari Ferrer", que endureceu a punição para crimes contra a mulher e estimulou o uso da tecnologia para coibir a aproximação do agressor.

A fila de espera para a instalação dos aparelhos em Belém e região metropolitana gira em torno de 300 pedidos. O governo espera que a nova lei crie um fundo de rotatividade, onde os recursos ressarcidos por agressores com renda comprovada sejam carreados imediatamente para a compra de novos equipamentos, reduzindo o gargalo logístico.

A oposição solicitou um destaque para garantir que a cobrança não bloqueasse a concessão da medida protetiva em caso de recusa imediata do investigado em pagar. O relator aceitou a emenda verbal, garantindo que o monitoramento seja instalado independentemente do pagamento prévio, que ocorrerá posteriormente na esfera cível por meio de execução fiscal.

Para a subsecretária de Políticas para Mulheres, a lei também tem caráter pedagógico. Ao obrigar o pagamento, o Estado reforça a responsabilidade do agressor sobre a violência cometida. O texto foi construído com base em pareceres da Defensoria Pública e do Ministério Público do Pará, que validaram a constitucionalidade da cobrança.

Após a sanção, o Executivo tem o prazo de 90 dias para publicar o decreto que define os valores de referência e as faixas de isenção de acordo com a renda do agressor. A expectativa do Palácio do Governo é que a cobrança comece a valer para os novos monitoramentos solicitados a partir de agosto.

A sanção deve ser analisada na próxima semana pela governadora. Se sancionada, o Pará se alinha à tendência de outros estados da Federação que adotaram o modelo de autossustentabilidade do sistema, como Santa Catarina e o Ceará. A próxima etapa legislativa será o acompanhamento da regulamentação e do impacto na arrecadação prevista para o exercício de 2027.

e
◆ Repórter · Nortícia Política

Eliana Castro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

Reportagens como essa, no seu e-mail

Newsletter da Nortícia Política

Toda terça, uma carta com o que aconteceu de mais importante em política no Norte. Sem agenda, sem partido.