Lula defende divisão de tarefas domésticas em evento da Petrobras em Manaus
Durante anúncio de investimentos no Amazonas, presidente ajustou falas anteriores e destacou presença de mulheres em estaleiros.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira (27), em Manaus, que os homens precisam assumir tarefas domésticas para garantir a igualdade de gênero no mercado de trabalho. A declaração ocorreu durante cerimônia de anúncio de investimentos da Petrobras no Estaleiro Rio Negro.
A fala ajusta o tom adotado na véspera, quando o presidente classificou a vida da mulher como "mais grave" devido ao acúmulo de funções. O episódio ganhou contornos políticos na semana em que o governo tenta viabilizar a votação do projeto de lei que extingue a jornada de trabalho 6x1.
Para o Amazonas, a visita reforçou o compromisso federal com o Polo Industrial de Manaus. O investimento da Petrobras, ainda sem valor total divulgado, promete manter postos de trabalho e fomentar a cadeia produtiva local. Lula usou o palco para enfatizar a mudança no perfil da mão de obra industrial na região.
"Não sei se vocês viram a quantidade de mulheres que trabalham aqui. Acabou o tempo em que mulher só era para trabalhar de secretária", disse o presidente, apontando para operárias do estaleiro. O dado é estratégico: a presença feminina em setores historicamente masculinos, como a soldagem, é um indicador usado pelo governo para defender a ampliação de direitos trabalhistas.
A discussão sobre o 6x1 divide o Congresso. Enquanto a base governista defende a redução da jornada para 40 horas semanais como medida de saúde e produtividade, o empresariado e parlamentares de oposição alertam para o aumento de custos. O uso do exemplo das trabalhadoras de Manaus serve para ilustrar o argumento de que menos horas na fábrica exigem mais horas de cuidado no lar — espaço onde a resistência masculina ainda é barreira.
Segundo o IBGE, as mulheres brasileiras dedicam, em média, 21 horas a mais por semana a cuidados domésticos do que os homens. No Norte, esse patamar se repete, limitando a disponibilidade para qualificação profissional e jornada extra.
A articulação pelo 6x1 deve intensificar os contatos com o centrão nas próximas semanas. O governo precisa de 308 votos na Câmara para aprovar a matéria. O evento em Manaus serviu também para mobilizar governadores da região Amazônica, que veem na política industrial uma via de desenvolvimento sustentável.
O próximo passo do calendário legislativo é a apresentação de um parecer substitutivo na Comissão de Constituição e Justiça (CCJC). A liderança do governo espera levar o texto ao plenário até o dia 15 de junho.
Eliana Castro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



