Em Manaus, Lula defende recuperação da BR-319 e manutenção da Zona Franca
Presidente vinculou pavimentação da rodovia a medidas ambientais e garantiu prioridade à mineração de potássio em Autazes.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta quarta-feira (27) em Manaus a retomada das obras da BR-319 com condicionantes ambientais, a manutenção integral da Zona Franca de Manaus e a priorização da mineração de potássio no Amazonas.
O posicionamento sinaliza o alinhamento do governo federal às demandas do complexo industrial manauara e ao setor produtivo do Norte, focando em logística e insumos para alavancar o desenvolvimento regional nos próximos quatro anos.
Sobre a rodovia BR-319, Lula afirmou que a recuperação do pavimento é inegociável, mas vinculou o avanço da obra à preservação da floresta. "A BR-319 vai sair", garantiu o presidente, enfatizando que a rodovia é o eixo central para baratear o frete entre Manaus e o Centro-Oeste. O trecho de 405 km entre Manaus e Porto Velho continua interditado, dificultando o fluxo de soja e mercadorias. O governo estuda um modelo de concessão que inclua monitoramento via satélite para coibir o desmatamento ilegal no entorno, tentando evitar erros de pavimentações passadas na Amazônia que aumentaram o desmatamento exponencialmente.
Na questão tributária, Lula reafirmou o compromisso com a Zona Franca de Manaus. O modelo de incentivos fiscais, garantido constitucionalmente até 2073 pela EC 129, é responsável por mais de 100 mil empregos diretos no Polo Industrial. O presidente descartou alterações que possam enfraquecer a competitividade da indústria local diante da desoneração da economia do Sudeste, calmando os ânimos do setor empresarial que teme uma guerra fiscal desigual. A defesa da ZFM é um ponto de unidade entre a bancada amazonense e o Planalto, independentemente de partido.
A exploração de potássio em Autazes foi classificada como uma questão de soberania nacional. O projeto, que aguarda licença da Funai após longos trâmites com o Ibama, visa reduzir a importação do fertilizante — da qual o Brasil depende em mais de 85% — e abastecer o agronegócio do Norte. Lula vinculou a atividade à geração de renda e royalties para o estado, argumentando que a mineração sustentável é parte da transição econômica da Amazônia. O investimento estimado é de R$ 2,5 bilhões, com capacidade para produzir até 2,4 milhões de toneladas de cloreto de potássio por ano.
A seca histórica que atingiu a bacia amazônica em 2025 e os efeitos das mudanças climáticas também pautaram a conversa. O presidente anunciou investimentos estruturais em energia e calha de rios, lembrando a retomada do programa Luz para Todos para ribeirinhos. O foco é garantir segurança hídrica e elétrica para a população isolada, que sofreu com recortes no fornecimento e aumento de tarifas no ano anterior devido à crise nas hidrelétricas do Madeira.
Sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial, Lula manteve postura cautelosa. Ele reconheceu o potencial de reservas na foz do rio Amazonas, mas sublinhou que a exploração deve respeitar o licenciamento ambiental rigoroso, especialmente em áreas sensíveis próximas ao litoral do Amapá e Pará, alvo de pressões de movimentos indigenistas e ambientalistas. A decisão final sobre os blocos exploratórios aguarda parecer técnico.
A visita a Manaus marca o primeiro grande deslocamento de Lula à região Norte em 2026. A agenda inclui reuniões com o governador Wilson Lima e comitivas empresariais para alinhar os pactos federativos para o biênio 2026-2027, reforçando a articulação política para o segundo mandato. O presidente também participou de eventos com a bancada federal amazonense para garantir apoio no Congresso Nacional.
O Ministério dos Transportes deve publicar em breve o edital de licitação para o primeiro trecho asfaltado da BR-319, concentrado na manutenção do asfalto existente nos extremos, enquanto os estudos de viabilidade ambiental do trecho do meio seguem sob análise do Ibama. A expectativa do governo é iniciar as obras efetivas de pavimentação do trecho central ainda em 2027, dependendo da velocidade das licenças.
A abordagem econômica e ambiental procurou equilibrar o apoio ao setor produtivo com as promessas de campanha de preservação da Amazônia, um dos temas mais sensíveis da política externa e interna do governo, tentando mediar conflitos entre desenvolvimento e conservação que travaram investimentos na região na última década.
Eliana Castro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



