Amapá desperdiça 15 piscinas olímpicas de água por dia, aponta estudo
Estado tem 39% de perdas na distribuição; reduzir índice garantiria abastecimento para mais 225 mil pessoas.
Dona Francisca Neves, 56 anos, enxuga o suor da testa com as costas da mão enquanto espera a água encher o tanque da lavanderia, no quintal da casa da Rua Curuá, bairro Jesus Me Deu, em Macapá. "Faltou ontem, então hoje deixa correr pra garantir", diz ela, ajustando a mangueira que já está desgastada. Enquanto Dona Francisca guarda o líquido que pode faltar amanhã, um estudo divulgado nesta terça-feira (2) mostra que o Amapá desperdiça diariamente o equivalente a 15 piscinas olímpicas. O número parece absurdo para quem vive de conta gota, mas traduz um problema antigo que mora nos encanamentos estourados da cidade.
O levantamento é do Instituto Trata Brasil, em parceria com a consultoria GO Associados, e olha para os números de 2024. O Estado tem 39,27% de perdas na distribuição de água. Basicamente, para cada 100 litros tratados, quase 40 somem antes de chegar na torneira. O índice é praticamente igual à média nacional, que é de 39,53%, mas o corte do bolso e o impacto no dia a dia são sentidos aqui na porta de casa.
Se você mora em Macapá, o prejuízo aparece direto na conta. A capital tem um índice de perdas de 37,84%. A conta que faz o estudo é dura: cada ligação de água na cidade desperdiça, em média, 755 litros por dia. O limite que seria aceitável, segundo a portaria federal, é de 216 litros. É quase quatro vezes mais água jogada fora do que o necessário. Em termos práticos, só Macapá joga fora o volume de 9 piscinas olímpicas por dia.
Seu José Raimundo, morador do bairro Infraero, vive reclamando da baixa pressão. "Aqui na rua 12, a água chega fina. Deixamos a torneira aberta a noite toda pra encher o tambor, mas no fim do mês a conta é alta. Onde é que essa água vai?", pergunta ele. A resposta do estudo é que ela vaza na rede antiga, em ligações clandestinas ou em medidores furados. Se o Amapá conseguisse reduzir essas perdas para a meta de 25%, exigida pela Portaria 788/2024, daria para abastecer mais 225,5 mil pessoas em todo o estado. Só na capital, mais 34 mil pessoas teriam acesso garantido.
Não é só no Infraero. No Conjunto Universitário, a estudante Jéssica Costa, 22, conta que o desperdício visível irrita. "Tem vazamento lá na esquina há dois meses. Água jorrando de dia e de noite, e a gente sem água no terceiro andar. É triste ver isso num estado que fala de preservação", reclama a universitária. O contraste entre a água que some e a que falta é o cotidiano de quem paga a conta.
A responsabilidade de consertar esse cenário é da CAESA (Companhia de Água e Esgotos do Amapá), mas o desafio é de infraestrutura. Trocar redes antigas que estão escondidas debaixo do asfalto da Avenida Feliciano Coelho ou no meio do mato dos ramais custa caro e demora. Enquanto isso, o morador fica no meio do tiroteio entre a falta d'água e o reajuste na tarifa. O estudo coloca o Amapá entre os estados com níveis elevados de desperdício na região Norte. Significa que grande parte da água que a estação de tratamento produz, gasta energia e químico para limpar, nunca serve pra tomar banho ou cozinhar. Ela vira lama na rua ou inunda um buraco.
Para quem sofre com o rodízio ou com a baixa pressão, a recomendação é fiscalizar. Vazamentos visíveis podem ser reportados. Se cada litro conta, guardar 15 piscinas olímpicas debaixo do tapete é um luxo que o Amapá não pode se dar.
Reclamações sobre vazamentos na rede pública ou falta de água podem ser feitas pelo telefone 156, da CAESA, ou pelo aplicativo oficial da companhia. O número do protocolo vale como registro para cobrar uma solução.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.


