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Governo do Amazonas decreta emergência ambiental diante da estiagem e do El Niño

Com rios atingindo cotas históricas e calor extremo, o estado libera recursos para socorrer comunidades ribeirinhas isoladas.

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Bianca Aroucha
Amazonas · AM
18 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 691 palavras
Leito seco de um afluente do rio Negro na região de Manaus expõe troncos e raízes de árvores.
Com rios atingindo cotas históricas e calor extremo, o estado libera recursos para socorrer comunida · Foto: Redação Nortícia

A areia invadiu o quintal de dona Raimunda na comunidade de Tarumã Mirim, às margens do rio Negro. O que, até duas semanas atrás, era uma calha de água escura onde as crianças nadavam e as canoas atracavam com facilidade, agora é um tapete de lama rachada e bancos de sedimento expostos ao sol de meio-dia. Dona Raimunda, que tem 62 anos e é avó de sete netos, aponta para o tronco do jatobá que fica nu, revelando as marcas da última cheia, cicatrizes que a floresta guardava na altura da água e que agora expõem à luz uma história de seca.

O governo do Amazonas decretou, na manhã desta terça-feira, situação de emergência ambiental em todo o estado. Não é apenas um papel assinado em um gabinete climatizado no centro de Manaus, cercado pelo concreto que ignora o ciclo das águas. É o reconhecimento oficial de que o ritmo da floresta está quebrado, novamente, e desta vez o fenômeno El Niño — esse aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial — chega com um aperto de mão desesperador sobre a bacia amazônica, prometendo uma estiagem que pode ser mais severa do que a vivida em 2023.

Nas comunidades ao redor de Manaus e ao longo dos rios Solimões e Madeira, o dia começa mais cedo e termina mais tarde no esforço para buscar água. O rio, que é a única estrada, está baixando num ritmo que assusta. Para chegar ao mercado municipal de Manaus, os pescadores de Tarumã agora precisam descer as canoas quilômetros adiante, carregando o pescado nas costas pela lama quando o casco gruda no fundo. "O rio encolheu e ficou preto de tanto resíduo parado", diz dona Raimunda, enquanto enrola a rede de pesca que já não tem peixe para segurar. "Não é só falta de água, é a doença que vem com ela. O ar queima a garganta das crianças."

O que os meteorologistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) observam nos satélites, o corpo dos ribeirinhos sente na pele: um déficit de chuva acumulado que chega a 200 milímetros em algumas regiões. O El Niño atua como uma barreira, empurrando as frentes frias para o sul do Brasil e impedindo que a umidade da Amazônia suba e condense em chuva sobre a própria floresta. É um mecanismo atmosférico implacável, agravado pelo aquecimento global.

A floresta, porém, não é só vítima; é também um termômetro. A ciência já demonstrou que o desmatamento nas cabeceiras e no arco do desmatamento rouba da floresta a capacidade de criar o seu próprio clima. Sem as árvores para bombeiar água para a atmosfera — os chamados "rios voadores" descritos pelo climatologista Eneas Salati — o sistema de recarga da chuva se enfraquece. A seca não é mais um evento isolado, cíclico e previsível; ela se tornou uma ferida crônica que se abre todos os anos, um pouco mais fundo.

Com o decreto de emergência, o Governo do Estado pode acionar mecanismos da Defesa Civil para liberar recursos federais e estaduais. A promessa é a distribuição de cisternas, água potável, kits de higiene e medicamentos para combater doenças respiratórias, que já começam a lotar os postos de saúde nos municípios do interior. É a máquina pública tentando socorrer o que a natureza, por enquanto, não consegue regular, atuando sobre os sintomas de um desequilíbrio que é, em última instância, climático e ambiental.

No fim da tarde, o sol se põe vermelho e intenso sobre o leito seco do rio Negro. Distantes do barulho das sirenes e das discussões sobre recursos, as famílias de Tarumã Mirim reúnem-se na beira do que sobrou da água. Elas observam o horizonte, onde a fumaça de queimadas controladas e incêndios florestais começa a manchar o céu. Dona Raimunda bate a roupa numa pedra que, seis meses atrás, estaria submersa. Ela não sabe explicar a dinâmica do Pacífico, mas sabe o que é o silêncio do rio e o medo do fogo que acompanha a terra ressecada. Ela espera a chuva, não apenas para matar a sede, mas para devolver à floresta a sua respiração.

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◆ Repórter · Nortícia Amazônia

Bianca Aroucha

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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