Médico diz que Cacique Raoni está estável após internação em Sinop
Líder Kayapó recupera-se de infecção intestinal em UTI de Sinop (MT); esta é a terceira internação no semestre.
O asfalto de Sinop cheira a queimado diferente da floresta. Na sala silenciosa do Hospital Santa Rosa, longe do barulho das águas do Xingu, o cacique Raoni Metuktire descansa conectado a fios que monitoram o batimento de um coração que já viu noventa invernadas passar.
A notícia que chega do Mato Grosso nesta sexta-feira (16) traz um alívio momentâneo para quem acompanha a vitalidade do povo Kayapó: o quadro de saúde do líder é estável. Internado desde o último domingo (14) na Unidade de Terapia Intensiva para tratar de uma infecção intestinal, Raoni responde bem aos medicamentos, segundo o diretor-técnico do hospital, Douglas Yanai. "Ele é muito forte", garantiu o médico em um comunicado, uma frase que ecoa o que seus parentes dizem na aldeia do Piranhas, terra onde o cacique vive.
É a terceira vez neste primeiro semestre de 2026 que o corpo do guerreiro pede pausa para o repouso hospitalar. A fraqueza é natural para quem atravessou o século carregando o peso de um povo nas costas, mas o cansaço recente também carrega o peso das batalhas políticas que ele trava até mesmo deitado. Raoni não é apenas um homem idoso; ele é o que restou da memória viva de um Xingu que mudou drasticamente enquanto ele assistia, e agora o seu corpo reage à pressão do mundo externo.
Enquanto ele luta contra a infecção bacteriana, fora das paredes brancas do hospital a disputa pela floresta não para. O Território Indígena Kapôt-Nhinore, no Mato Grosso, segue sob pressão do avanço do agronegócio. O silêncio do leito de hospital contrasta com o barulho das motosserras que ele tanto denunciou aos presidentes e aos reis durante sua vida. Mas ali, na UTI, o desafio é estritamente biológico: a recuperação da flora intestinal, a manutenção da hidratação, a paciência do tempo de cura.
A equipe médica é otimista com a melhora dos sinais vitais. Se a evolução continuar positiva, a alta pode ser decretada nos próximos dias, permitindo que Raoni retorne ao convívio de sua família e ao território que ele protege. A luta pela vida na floresta exige um corpo são, e agora a medicina branca se alia à força do espírito para mantê-lo de pé.
Quando o cacique sair de Sinop, ele não vai apenas voltar para casa. Vai voltar para ser os ouvidos e a voz de quem não pode ser ouvido. Enquanto ele dorme e recupera a força, o Xingu continua correndo, mas a floresta aguarda o retorno de quem sabe falar a língua que os ventos entendem.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



