Bandeira na lama: jovens do Guamá pintam rua de barro em homenagem à Copa
Em vez de asfalto, a Rua Caraparu ganhou cores de verde e amarelo na terra batida, transformando a falta de infraestrutura em celebração popular.
O cheiro de tinta látex misturado ao cheiro de barro molhado é o que fica no nariz depois que o vídeo acaba. Na Rua Caraparu, no bairro do Guamá, em Belém, a cor verde não rendeu no piso irregular: ela se misturou à lama e virou um brejo de esperança. O amarelo, esse, brilhou com a intensidade de um sol de meio-dia, mas é a textura grudenta da terra batida que define a cena. Enzo Henry, de 23 anos, mergulhou o rolo de espuma barato e passou o primeiro traço ali onde o asfalto é uma promessa de campanha que choveu antes de chegar.
Não é um tapete vermelho de estádio, é o chão de terra que ganha as cores do Brasil. Em vez de murais de tijolos cimentados, a festa da Copa do Mundo de 2026 chegou aqui em forma de pintura direta no solo, transformando a geografia inacabada da cidade periférica em uma arquibancada improvisada. A ação que viralizou nas redes sociais é um documento vivo: a falta de infraestrutura não impediu a convocação da alegria.
Enzo conta que a ideia nasceu de um misto de orgulho e vontade de pertencimento. Ele, fã de carteirinha do Neymar, via as ruas asfaltadas de bairros centrais ganhando faixas coloridas no feed do Instagram e sentia uma pontada de ausência na sua esquina. "Tava vendo todo mundo pintando a rua onde mora e queria saber como ficaria a nossa rua decorada", diz ele. Enzo nunca viu o Brasil levantar a taça, mas cresceu no colo do pai vendo jogos na TV antiga de tubo, aprendendo que o futebol é essa coisa inexplicável que faz o brasileiro chorar de felicidade ou de ódio no mesmo intervalo de 90 minutos.
Decorar a rua é um rito quase religioso do calendário esportivo brasileiro. Desde os anos 70, a Copa vira extensão da sala de estar, saindo da tela e tomando conta do calçamento, das faixas, das camisas de time que viram uniforme de sexta-feira. O que mudou no Guamá foi o suporte. A tradição de carimbar o concreto ou o muro ganhou uma adaptação amazônica visceral: se não tem asfalto, a argila vermelha aceita a tinta da mesma forma.
A socióloga Lúcia Sá, pesquisadora do Núcleo de Estudos Urbanos da UFPA que estuda festas populares na periferia, vê aí um ato de resistência simbólica. "Quando o morador toma posse da via pública, mesmo que seja na lama, ele reivindica o direito à cidade e à beleza. O Guamá, historicamente visto pela ótica do déficit, aparece no vídeo não como problema, mas como palinho de partida de uma alegria que não se cala", analisa.
A pintura rolou numa terça-feira de sol forte, o tipo que cozinha o cérebro em Belém, mas a lama é perene naquela parte do Guamá. Os vizinhos, que antes viam o charco com desconfiança tropeçando no caminho do ônibus, saíram de casa com baldes e rolos emprestados. O verde, que era da mata, virou musgo na poça; o azul foi o céu refletido na água parada; e o amarelo era a bandeira herself, tudo batido na terra batida.
No registro que correu o WhatsApp, dá para ver o orgulho no passo incerto de quem pisa na tinta fresca para não sujar o chinelo. A bandeira não está hasteada em um mastro de metal frio; ela está estirada, molhada e suja, viva aos pés de quem caminha por ali. É uma Seleção que não calça chuteira, mas sim o chinelo havaiano do povo, com a tinta descascando nos calcanhares.
Quem quiser ver a "Bandeira do Guamá" de perto precisa ir até a Rua Caraparu, na confluência com a Travessa da Unidade, no fundo do Guamá. É perto da linha do ônibus que desce a rampa. A tinta já deve estar descascando com a próxima chuva, mas o registro de que a festa cabe em qualquer lugar vai ficar na memória do asfalto que falta. Leve chinelo velho e tome cuidado com o lamaçal.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



