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Circuito Favela Cultural abre inscrições para artistas da periferia no Amapá

Iniciativa busca incluir vozes de quilombos e comunidades amazônicas na programação de 2026; inscrições vão até esta quinta.

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Karina Pinheiro
Amapá · AM
27 de mai. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 581 palavras
Músicos tocam instrumentos de percussão durante ensaio ao ar livre em comunidade de Macapá.
Iniciativa busca incluir vozes de quilombos e comunidades amazônicas na programação de 2026; inscriç · Foto: Redação Nortícia

O som do tambor escapa pelas frestas da madeira e se mistura com o barulho da chuva que cai forte em Macapá. É meio-dia, o calor úmido do Amapá encosta na pele, mas dentro do terreiro o ritmo não para. O couro da percussão, talhado ali mesmo, vibra com uma cadência que só quem nasceu na quebrada conhece de cor. Não é ritmo de passarela, nem batida enlatada de rádio; é o som da rua, do quintal, do terreiro de quilombola, o pulso que a Expo Favela Innovation Amapá 2026 quer amplificar.

De 27 a 29 de junho, a capital amapaense se torna o palco de uma conversa que não se limita a negócios e tecnologia. O evento traz o Circuito Favela Cultural, uma abertura de espaço — literal e simbólico — para quem constrói arte nas margens do mapa. O edital é aberto, convocado e urgente: as inscrições para artistas, grupos e coletivos vão até esta quinta-feira (28), e o chamado é para quem vive a criação como forma de resistência e existência.

Jéssica Thaís, escritora e produtora executiva da Expo, está de olho nessa pulsação. Ela sabe que o potencial criativo do Amapá não está apenas nos centros convencionais, mas infiltrado nas comunidades que margeiam o rio e nos quilombos que guardam a memória da floresta. "Queremos que os artistas das periferias, quilombos e comunidades amazônicas ocupem esse palco com suas histórias e produções criativas", defende Jéssica. Não é sobre trazer a periferia para o centro apenas para ser vista, mas para ela mesma ditar o roteiro.

A chamada é ampla e democrática, abraçando diferentes matizes da expressão humana. Música, evidentemente — o rap que narra o cotidiano, o carimbó que reinventa a tradição, o batuque que sacode o chão. Mas também dança, com o corpo que fala o que a boca cala; teatro, com a dramaturgia que brota do improviso; poesia, onde a palavra é arma e abraço; e as batalhas culturais, onde a rima é a medida da inteligência e da ginga. Até a cultura popular, aquela que se aprende vendo o vovó fazer, tem lugar garantido.

Para a cultura da região, isso significa uma saída da invisibilidade forçada. Muitas vezes, o artista da periferia do Amapá depende do improviso para mostrar seu trabalho, lutando contra a falta de estrutura e de circuitos de difusão. O Circuito Favela Cultural propõe um corte nessa lógica, oferecendo um palco legitimado e uma curadoria que valoriza a origem da obra. É a oportunidade de que o rap do bairro do Jesus Me Deixe dialogue com o carimbó do Curiaú, ou que a performance contemporânea se encontre com a sabedoria ancestral das comunidades ribeirinhas.

A expectativa é de que a programação traga não apenas entretenimento, mas um retrato fiel e complexo do que é viver e criar no Norte. A arte aqui não é isolada; ela é molhada pelo rio, alimentada pelo açaí, aquecida pelo equador. Ao abrir as portas para essas manifestações, a Expo Favela cumpre um papel de conectar o que, historicamente, esteve separado por cercas geográficas e sociais.

Quem se sente convocado pelo chamado da criação precisa correr contra o tempo. As inscrições para o Circuito Favela Cultural encerram-se nesta quinta-feira (28). Os interessados devem buscar os formulários oficiais da Expo Favela Innovation Amapá 2026 nas redes sociais do evento. É hora de pegar o instrumento, afiar a poesia e ensaiar o passo: o palco de Macapá está esperando para ouvir o que a periferia tem a dizer.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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