Lula chama rivalidade de Parintins de 'lição de civilidade' e Petrobras patrocina festival
Presidente afirmou que a disputa entre Bois ensina respeito e estatal confirmou patrocínio de R$ 5,2 milhões para o evento neste ano.
O cheiro de tinta acrílica seca na pele dos fiéis é o perfume de junho em Parintins. Enquanto o azul do Caprichoso e o vermelho do Garantido tingem as arquibancadas do Bumbódromo, o que fica não é o grito de guerra, mas o silêncio respeitoso de quem sabe esperar a hora do outro cantar. É nessa troca de olhares, muitas vezes deparentada pela beira do rio, que vive o verdadeiro espírito do Boi.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva trouxe essa experiência subjetiva para o palanque formal em Manaus nesta quarta. Em meio a anúncios de investimentos da Petrobras no Amazonas, ele destacou o festival como "a maior lição de civilidade que a gente pode dar ao Brasil". A frase soou quase como um desabafo diante da polarização que toma conta das redes e do congresso, um espelho colhido às margens do Amazonas para refletir o país.
Mas a lição veio com contrapartida prática. A estatal confirmou o patrocínio de R$ 5,2 milhões para a edição de 2026. O dinheiro cai como chuva na época da cheia: é vital para garantir que as "galinhas" voadoras, as coreografias gigantes e a iluminação de xadrez saiam do papel. Para as agremiações, que funcionam como grandes máquinas de sustentação de artesãos e trabalhadores da ilha, o recurso é o combustível para manter a tradição viva.
"As pessoas precisam compreender por que existe tanta rixa na política e no esporte, enquanto Caprichoso e Garantido passam o ano inteiro se preparando para disputar, mas com respeito", observou Lula. É uma verdadeira aula de cidadania. Quando o "Contramestre" do Garantido levanta a batuta, o torcedor do Caprichoso se assenta. É o "xadrez" humano, a mobilização estratégica de milhares de pessoas que, apesar de jurar de amor eterno ao seu bicho, reconhecem no outro o artista da noite.
Mestres da cultura, como os veteranos que assistiram ao nascimento do festival nos anos 60, sempre disseram que o Boi não aceita desrespeito. A festa é um ritual sagrado de passagem, onde o sagrado e o profano dançam juntos. A "curimbatã" que o professor Raimundo Muniz, pesquisador do folclore amazônico, tanto estuda, é feita dessa harmonia dissonante. Não é apenas disputa; é a confirmação da identidade de um povo que se reinventa a cada junho.
No Bumbódromo, a emoção não cabe no peito. É o som do maracá em uníssono, o chamado do "galo" que arrepia, a voz do "apresentador" narrando a lenda. É o momento em que o cidadão comum vira ator de sua própria história, vestindo a carapuça do índio ou o esplendor do boi brilhante. O petróleo da Margem Equatorial pode ser o assunto de Brasília, mas aqui o ouro é o brilho da lantejula sobre o algodão.
Quem quiser aprender essa civilidade, precisa comprar a passagem da banela ou da catraia. O Festival de Parintins acontece nos dias 28, 29 e 30 de junho. A festa é livre de ódio e cheia de glória, um raro lugar onde perder faz parte do espetáculo e aplaudir o rival é ato de amor à cultura. Não perca o chamado.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



