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Caprichoso celebra 40 anos da Tarde Alegre Infantil com cortejo em Parintins

Evento reuniu mais de 4 mil pessoas no Centro Histórico e celebrou as raízes culturais com o pequeno Théo Medeiros conduzindo o Boi.

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Karina Pinheiro
Amazonas · AM
08 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 666 palavras
Criança vestida com indumentária azul e branca puxa corda de boi de madeira em rua asfaltada de Parintins.
Evento reuniu mais de 4 mil pessoas no Centro Histórico e celebrou as raízes culturais com o pequeno · Foto: Redação Nortícia

A corda de sisal é grossa, desgastada pelo tempo e pelo suor, mas firme nas mãos pequenas de Théo Medeiros. Na Rua Gomes de Castro, sob o sol de meio-dia que amolece o asfalto do Centro Histórico de Parintins, ele puxa o Boi Caprichoso. Não é o gigante de estruturas metálicas que desliza no Bumbódromo em junho, mas o 'Boizinho de Rua', feito de madeira e papelão, leve para o ombro de uma criança, mas carregado da mesma responsabilidade sagrada. Théo tem seis anos e, neste domingo (8), não é apenas um menino na multidão: ele é o condutor da azulidade, filho de Caetano Medeiros, o atual Amo do Boi. Ver o filho segurar a toalha, puxar a estrela guiada, é um ritual de passagem que desenha o futuro da brincadeira que virou fé na ilha.

O cortejo marca os 40 anos da Tarde Alegre Infantil, uma pré-temporada que não serve apenas de ensaio técnico, mas funciona como o principal berço de formação do torcedor e do artista do futuro. O Boi Caprichoso levou às ruas mais de quatro mil pessoas, um mar de cores que ocupou o espaço entre o casario antigo e o Curral Zeca Xibelão. O som que vem da bateria da Racinha Azul é a toada batida no peito, um ritmo ligeiro que faz as perninhas da plateia, alta ou baixa, não pararem quietas. Não há aqui a tensão do julgamento dos jurados, nem a guerra fria do Galo X Garantido. É o amor desinteressado, lúdico, aquele que contagia sem pedir permissão.

Atrás do pequeno Théo, vem a corte. O Pajé Erick Beltrão, com sua voz de comando que ainda engrossa, inicia o canto. O Tripa Edson Jr., mestre na arte do apito, coordena os movimentos da Marujadinha e do CDCzinho, grupos que formam a base da galera que sustenta a brincadeira. O cheiro de pólvora das festas de santo se mistura ao de algodão-doce vendido nas barraquinhas improvisadas. O ar pesa, umedecido pelo rio Amazonas que corria ali perto, mas ninguém se importa. O que importa é o saracoteio da garotada, o pisar forte no chão, o rebolado que aprendeu copiando os pais. Bois mirins como o Tupi, a Estrelinha e o Mineirinho ganham as ruas, versões em miniatura que garantem a renovação do folclore.

A memória da festa não se perdeu no tempo. Ericky Nakanome, presidente do Conselho de Arte do Caprichoso, lembrou os fundadores. João Andrade, criador da Tarde Alegre Infantil, e Walter Lobato, o comunicador que por anos animou a festa no curral com sua voz inconfundível, foram homenageados. A ideia, há quatro décadas, era clara e urgente: segurar a criançada na raiz cultural da ilha, impedir que a magia do boi-bumbá se perca nas telas dos celulares ou nas influências externas. É um trabalho de educação popular feito a base de ritmo, fantasia e muito tinta.

O coração da festa bateu mais forte com a presença das crianças da Associação Pestalozzi. Convidadas especiais, elas entraram na roda, provando que o boi não tem fronteiras e acolhe todos os ritmos e capacidades. No Curral Zeca Xibelão, o espaço se encheu de risadas, de correrias, de pés descalços no chão de terra batida. A experiência sensorial é completa: o visual do azul e branco refletindo o sol, o sonoro dos tambores ecoando no peito, o tátil da corda quente nas mãos, o paladar do doce derretendo na boca.

Quem viu a energia da Racinha Azul e a alegria dos bois mirins garante: o futuro do Festival de Parintins está assegurado, e já sabe pular com o pé direito e cantar a toada no tom certo. A brincadeira de rua de hoje é o espetáculo de milhões de amanhã. A próxima grande parada acontece em junho, no Bumbódromo oficial, mas a memória desta tarde de sol, algodão-doce e corda de sisal vai ficar guardada no curral da infância de quem, em breve, será o novo Amo, a nova Marujada, o novo público que defende a cor com unhas e dentes.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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