Cervo-do-pantanal cruza o Rio Araguaia em registro raro no Tocantins
Animal foi avistado nadando tranquilamente na região de Caseara; biólogo alerta para status de vulnerabilidade da espécie.
O Rio Araguaia corre largo e silencioso na altura de Caseara, no oeste do Tocantins, onde a água barrenta carrega a história do Cerrado e lambe as raízes da floresta. É nesse corredor de águas que a vida se desloca, nem sempre pela terra firme, mas pelo desenho das correntes. No dia 21 de maio, o rio deixou de ser apenas um espelho para refletir o movimento de um viajante incomum: um cervo-do-pantanal atravessando a calha principal, sem pressa, longe das margens.
Carlos Kruger, guia de pesca de 33 anos, navegava pelo trecho quando percebeu a interrupção na linha do horizonte. Não era um tronco boiando nem uma garça em voo. Era o pescoço de um mamífero grande, emergindo e submergindo em um ritmo cadenciado. "Experiência incrível, um contato direto com a natureza", descreveu ele, que reduziu a marcha da embarcação para não interromper a travessia. O registro em vídeo, que mais tarde circularia pelas redes, mostra a tranquilidade do animal: ele segue nadando, indiferente à presença humana, focado apenas na margem oposta.
O cervo-do-pantanal, cientificamente chamado de Blastocerus dichotomus, não é um animal que se veja todos os dias, especialmente no meio do rio, longe da cobertura vegetal que lhe oferece proteção. É a maior espécie de cervo da América do Sul, capaz de atingir dois metros de altura e 130 quilos. Silionamã Dantas, biólogo que analisa o comportamento da fauna regional, explica que o nadar é uma habilidade natural da espécie, necessária em um bioma dominado pelas águas, como o Pantanal e as áreas alagáveis do entorno do Araguaia. "Ele está tranquilo, apenas continuou seguindo o mesmo ritmo", observou Kruger, corroborando a adaptação do animal ao ambiente aquático.
A presença do cervo neste trecho do Araguaia, entretanto, carrega um peso maior que a curiosidade turística. A espécie é classificada como vulnerável, pressionada pela transformação de seus habitats naturais em pastagens e pela proximidade cada vez maior com o gado bovino, que transmite doenças. Ver um exemplar adulto nadando livremente é um sinal de que, naquele ecossistema específico de Tocantins — na transição entre o Cerrado e a Amazônia —, ainda há espaço para a fauna de grande porte se mover.
A região de Caseara, banhada pelo rio e pelo complexo de ilhas que inclui a Bananal, funciona como um refúgio. A mata ciliar, quando preservada, serve como corredor e despensa. O cervo não estava fugindo de um incêndio nem de caçadores no momento do registro; estava apenas exercendo seu direito de trânsito. O vídeo capturado por Kruger congela um minuto dessa convivência, mas o rio segue correndo depois que o animal toca a terra firme e desaparece na vegetação densa, deixando apenas o rastro de suas patas na lama e a certeza de que a floresta ainda guarda seus segredos vivos.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



