El Niño pode trazer seca severa ao Amazonas no segundo semestre
Governo do estado alerta para mais de 80% de chance de estiagem forte, similar à crise de 2023, com efeitos até 2027.
O Rio Negro já mostrou a língua. Na ponta do varadouro de Iranduba, na outra margem de Manaus, o senhor Raimão Costeira aponta o dedo calejado para o barranco onde a água deveria bater, mas não bate. "Em 2023 chegou até aqui", ele diz, traçando uma linha na altura do peito, lembrando o ano em que o rio se amarrou e o peixe sumiu das malhadeiras. A memória da estiagem que paralisou a calha do Amazonas ainda está fresca na terra, e agora o governo alerta que ela pode voltar a visitar o território ainda este ano.
O Comitê Permanente de Enfrentamento a Eventos Climáticos do Amazonas confirmou na quarta-feira (17) o que o corpo do rio já anuncia: há mais de 80% de chance de o fenômeno El Niño se estabelecer no segundo semestre de 2026, arrastando a seca até o começo de 2027. A previsão é técnica, mas o sentimento na beira do rio é de antecipação de um luto que ninguém quer repetir.
Para as comunidades ribeirinhas, a seca não é apenas estatística da Defesa Civil. É o fechamento das escolas porque o professor não consegue chegar de catraia, é o surto de doenças de pele quando a água suja bate na porta de casa, é o isolamento. Em 2023, imagens de botos mortos e tonelhas de peixe apodrecendo nas praias de Manaus circularam o mundo, mas o peso real foi carregado pelas famílias que viram a floresta pegar fogo sob o sol implacável.
El Niño é o nome científico para um desequilíbrio quente nas águas do Oceano Pacífico Equatorial. Na Amazônia, esse aquecimento atua como uma barreira invisível que empurra as nuvens de chuva para o sul, roubando a água que deveria irrigar a copa das árvores e encher os igarapés. O governador Roberto Cidade reuniu secretários no Palácio da Justiça para traçar estratégias de antecipação, falando em preparação e medidas mitigadoras.
Mas a preparação do Estado enfrenta um desafio que vai além do estoque de água potável. Cientistas apontam que o desmatamento nos cabeceiras e o avanço do fogo enfraquecem a capacidade da floresta de gerar seus próprios rios voadores. Menos árvore em pé significa menos umidade no ar, o que potencializa os efeitos do El Niño, transformando um fenômeno cíclico em uma crise crônica de devastação.
O governo diz que está atento, monitorando a cota dos rios dia a dia. Mas para quem vive da água e da terra, a confiança mora na capacidade de a floresta resistir. Enquanto o Sol forte de junho queima a madeira das canoas em Iranduba, o olhar de Raimão segue para o horizonte, procurando o sinal da chuva que, segundo a previsão, pode demorar a chegar.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



