Após seis meses, investigação de rompimento de barragem no TO segue em aberto
Barragem em Ponte Alta do Bom Jesus deixou rastro de lama; Naturatins exige plano de recuperação.
O barro mudou a cor do Ribeirão Bonito. Em Ponte Alta do Bom Jesus, no sul do Tocantins, a memória do mês de dezembro ainda traz o som que não era de chuva: era o estampido do vertedouro cedendo, a água engolindo a margem e invadindo o quintal onde as galinhas dormiam. Foi ali que o rio deixou de ser apenas correnteza para se transformar em ameaça, carregando consigo a segurança de quem sempre viveu de costas para a água.
Seis meses se passaram desde que a barragem particular se rompeu na zona rural, liberando um volume de rejeitos que arrastou vegetação, terra e o sossego da região. O acidente ocorreu em uma estrutura que estava sendo erguida para abrigar uma central geradora hidrelétrica civil, uma promessa de energia que virou receio naquela tarde. A lama desceu o córrego, cobriu o pasto e chegou perto demais das casas, obrigando cerca de quinze pessoas a deixarem seus laços no momento do impacto.
Foram seis residências atingidas diretamente. Não houve mortes, mas houve o deslocamento forçado e o impacto na carne da terra. O solo daquela região, situada na transição onde o Cerrado beija a Amazônia, recebeu a carga do sedimento e espera, ainda agora, o movimento da recuperação. A cicatriz no terreno permanece exposta, recordando a força bruta da água quando é descontrolada pela engenharia humana.
O Instituto Natureza do Tocantins, o Naturatins, agiu com o peso da lei técnica para tentar conter os danos. O empreendimento foi embargado, a licença ambiental foi suspensa e uma multa de R$ 1,5 milhão foi aplicada aos responsáveis. Mas o dinheiro, por si só, não devolve o estado anterior das coisas. O que resta agora é o cumprimento do Plano de Recuperação de Áreas Degradadas, o PRAD, um instrumento burocrático que traduz, na linguagem da biologia, a tentativa de costurar o que foi rasgado na paisagem.
A investigação sobre as causas exatas do rompimento, contudo, segue silenciosa como o lamaçal que ressecou ao sol. O Grupo ZX Energia, responsável pela obra, não respondeu às tentativas de contato até a última atualização. É um vão de comunicação que deixa os moradores e o próprio poder público em um limbo de perguntas sobre o que houve naquele vertedouro: falha no projeto, erro de execução ou a pressão invisível do prazo?
No bioma Cerrado, que tantas vezes é tratado como o laboratório da expansão agrícola e energética do país, eventos como este reacendem a discussão sobre o custo do progresso. A recuperação da área não é apenas limpar o lamaçal visível; é recompor a estrutura do solo, replantar a vegetação nativa que segurava a terra e garantir que o Ribeirão Bonito volte a ter a qualidade de água necessária para quem dele depende para beber, lavar roupa e viver.
A exigência do PRAD é o passo concreto que o Estado oferece para que a natureza tenha uma chance de cura ao longo do tempo. Mas a confiança da comunidade, essa é a que demora mais para voltar a fluir, assim como as águas do ribeirão que, um dia, foram apenas Bonito.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



