Fundo Amazônia abre edital para viveiros e redes de sementes na Amazônia
BNDES e CI-Brasil selecionam até 60 iniciativas no Pará, Acre, Amazonas e Mato Grosso com foco na cadeia produtiva de sementes nativas.
No sítio Santa Maria, às margens da estrada que corta o município de São Félix do Xingu, no Pará, o trabalho começa antes do sol raiar. É a hora de colher as sementes de jatobá, cumaru e andiroba que caíram durante a noite, quando a floresta solta seus frutos com mais vigor. Senhora Benedita, que vive na região desde a década de 1980, sabe que o ciclo da natureza não espera a burocracia. Ela caminha pelas trilhas abertas entre a capoeira e a mata remanescente, recolhendo os frutos com cuidado, separando as sementes viáveis e as levando no cesto de fibra para o pequeno viveiro que montou ao fundo da casa. Lá, protegidas do formigueiro e do calor excessivo, as mudas nascem e crescem até estarem prontas para voltar à terra. O que ela faz por conhecimento herdado, e agora por necessidade de renda, acaba de ganhar uma ponte estrutural para o mercado formal: o edital lançado nesta terça-feira pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em parceria com a Conservação Internacional (CI-Brasil).
A chamada, financiada por recursos do Fundo Amazônia, não procura apenas projetos de plantio. Ela olha para o início da cadeia, para a base da restauração: os coletores de sementes e os viveiros comunitários que guardam a diversidade genética da Amazônia. O projeto, batizado de Floresta para o Bem-Estar, pretende selecionar até 60 iniciativas em quatro estados da Amazônia Legal — Pará, Acre, Amazonas e Mato Grosso —, com inscrições abertas até o dia 17 de julho. O objetivo é transformar a atividade de coleta e produção de mudas, muitas vezes feita de forma precária e isolada, em pequenos negócios sustentáveis, capazes de gerar renda para as famílias ribeirinhas e, ao mesmo tempo, fornecer insumos de qualidade para a recuperação de áreas degradadas.
A importância dessa rede biológica e social é fundamental. Quando se fala em reflorestamento na Amazônia, não se trata apenas de plantar árvores, mas de garantir que as espécies certas, aquelas que pertencem àquele bioma específico, sejam reintroduzidas no solo. Sementes de espécies climáxicas, como a castanheira-do-pará ou o mogno, dependem de condições específicas de germinação e de um manejo cuidadoso desde o momento em caem da árvore mãe. As redes de sementes, formadas por agricultores familiares, indígenas e extrativistas, são os guardiões desse patrimônio genético. Eles conhecem a fenologia das plantas, sabem qual é a lua certa para a coleta e como armazenar cada tipo de semente para que não perca o poder de germinar. O edital reconhece esse saber técnico tradicional e propõe aliá-lo à gestão de negócios.
As iniciativas selecionadas terão acesso a uma cesta de apoio que vai além do dinheiro. O recurso oferecido é não reembolsável, o que alivia a pressão financeira sobre essas comunidades, mas o valor financeiro é apenas uma parte da equação. O projeto prevê capacitação técnico-gerencial, auxiliando os grupos a elaborarem planos de negócios e a se organizarem formalmente. É o passo para sair da informalidade e conseguir acessar outros mercados no futuro. Segundo a CI-Brasil, o foco é estruturar a cadeia produtiva da restauração, garantindo que o dinheiro que chega via financiamentos de restauração — um mercado em expansão no contexto de crise climática — permaneça na floresta, beneficiando quem a protege.
Do ponto de vista institucional, o edital é um sinal de retomada das ações financiadas pelo Fundo Amazônia, o principal mecanismo de financiamento de políticas de combate ao desmatamento e de sustentabilidade na Amazônia. O recurso, que vem de doações internacionais, voltou a fluir com mais força após anos de paralisação e escassez. Ele financia agora a reconstrução da floresta, literalmente semente por semente. Nos estados do Norte, onde o desmatamento avança sobre as fronteiras agrícolas, initiatives como essa são essenciais para criar corredores ecológicos e garantir a resiliência das terras indígenas e unidades de conservação.
De volta ao sítio Santa Maria, dona Benedita olha para as bandejas de isopor onde as novas mudas de jatobá começam a brotar. Ela sabe que, se sua iniciativa for uma das escolhidas, o viveiro poderá crescer, ganhar estrutura de irrigação e talvez empregar mais duas ou três mulheres da comunidade. Mas ela sabe também que, independentemente do edital, o trabalho dela continua. A chuva vai voltar a cair naquela região em poucos meses, e a terra precisará estar pronta para receber as árvores. Enquanto houver sementes no chão da floresta, haverá o início de um novo ciclo de vida.
Bianca Aroucha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



