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Nortícia AmazôniaOperação Xapiri Mebêngôkré

Ibama e PF destroem 31 escavadeiras em operação contra garimpo ilegal na TI Kayapó

Ação federal inutilizou maquinário e apreendeu combustível e armas no sul do Pará, combatendo a rede de apoio ao crime ambiental em território Mebêngôkré.

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Bianca Aroucha
Pará · AM
19 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 578 palavras
Escavadeira hidráulica amarela destruída no meio da floresta densa, com terra revirada ao redor.
Ação federal inutilizou maquinário e apreendeu combustível e armas no sul do Pará, combatendo a rede · Foto: Redação Nortícia

O barulho das dragas parou. No coração da Terra Indígena Kayapó, no sul do Pará, onde o vermelho da terra é revirado até se transformar em lama, o silêncio voltou a ocupar o espaço da máquina. É um silêncio provisório, mas necessário, anunciando que a floresta não está entregue à mercê das escavadeiras.

Nesta semana, agentes do Ibama e da Polícia Federal concluíram a primeira fase da Operação Xapiri Mebêngôkré. O nome da ação não é casual: Xapiri são os espíritos xamânicos dos povos do entorno, e Mebêngôkré é como o povo Kayapó se autodenomina, "os homens de verdade". O objetivo da incursão federal não era apenas fiscalizar um ponto de extração, mas desativar a engrenagem complexa que sustenta o garimpo ilegal dentro de um território contínuo de floresta.

Para quem vive na beira do rio, encarar a chegada das máquinas é encarar a mudança da cor da água. O garimpo não retira apenas o ouro; ele retira a clareza do igarapé, assusta a caça e traz consigo um mundo de violência que desorganiza a vida das aldeias. Quando o Estado demora a chegar, o povo Mebêngôkré fica na linha de frente da defesa, vigiando os varadouros abertos pela ambição dos invasores.

Os números do balanço parcial da operação revelam a escala da destruição em apenas alguns dias de ação. Trinta e uma escavadeiras hidráulicas foram inutilizadas. Cada uma delas, operando dia e noite, tem o poder de cavar um buraco do tamanho de um campo de futebol em poucas semanas, removendo a camada fértil do solo e envenenando os cursos d'água com sedimentos. Ao lado delas, foram destruídos caminhões, tratores e motosserras, todo o aparato logístico que mantém o acampamento funcionando longe dos olhos da cidade.

A fiscalização também encontrou o combustível dessa destruição: cerca de 10,2 mil litros de diesel estocados para manter as máquinas rodando. Esse diesel, se derramado na terra alagada, é uma sentença de morte para a biodiversidade local. Além dos insumos pesados, a apreensão de uma antena de internet via satélite mostra o caráter organizado do crime. O garimpo moderno não é isolado; ele é conectado, coordenado e armado, como comprovaram as duas armas de fogo e munições apreendidas com os infratores.

O resgate de duas aves silvestres pode parecer um detalhe menor diante do ferro destruído, mas carrega um simbolismo forte. É a vida retomando o corpo que tentaram aprisionar. As aves foram soltas, assim que o permitiu o manejo, voltando para a copa que sobreviveu aos cortes. O ouro, pouco mais de 20 gramas, foi apreendido como prova material do roubo de um bem que pertence à União e, principalmente, aos povos guardiões daquele solo.

A Terra Indígena Kayapó é um dos maiores territórios protegidos do país, uma barreira de floresta que segura o desmatamento no Arco do Desmatamento. Quando o garimpo avança ali, ele não afeta apenas os indígenas; ele abre uma ferida na climatologia regional, afeta a chuva que irriga as lavouras mais ao sul e libera carbono que estava preso há séculos nas raízes.

Ao final da ação, as equipes se retiraram, deixando para trás um cenário de máquinas inertes, enferrujando em meio à umidade da Amazônia. O trabalho agora é da floresta, que começará o lento processo de cobrir as feridas abertas no chão, e do povo Mebêngôkré, que volta a vigiar seus rios, sabendo que a batalha contra a cobiça é permanente, mas que neste round, a vida conseguiu respirar sem o ruído das britadeiras.

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◆ Repórter · Nortícia Amazônia

Bianca Aroucha

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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