Chuvas atingem 10 municípios em Roraima e isolam comunidades
Volume de chuva atinge 90% da previsão mensal em Roraima, destruindo pontes e isolando comunidades em dez municípios, alerta Defesa Civil.
Seu Raimundo Nonato, 56 anos, encara a correnteza barrenta onde existia a ponte de madeira que ligava sua propriedade à sede do município de Caracaraí. Desde a madrugada de segunda-feira (26), o acesso simples virou um rio de largura incerta e corrente forte. "Levou a ponte, levou o cerca e levou o sossego. A gente ouvia a madeira estourando de longe", conta o produtor rural, enquanto tenta coordenar o resgate do último bezerro que ficou preso numa ilha de terra formada pelo represamento do ribeiro.
O cenário de Raimundo se repete em Caracaraí e se espalha por outros nove municípios de Roraima neste fim de maio. As chuvas intensas, características do período que vai de abril a setembro, bateram na porta com força antecipada e insistente. Até esta terça-feira (27), a Defesa Civil estadual já contabilizava 315 milímetros de chuva acumulada — volume que representa 90% do que era previsto para cair no mês inteiro. Com o solo saturado, a água não infiltra e corre pelas superfícies, devastando infraestrutura.
Em Normandia, a situação exige atenção redobrada. Famílias que residem à beira da rodovia vicinal ficaram isoladas quando o nível do igarapé subiu acima da cota de segurança. O asfalto, muitas vezes a única via de escoamento, virou passarela para a enxurrada. "A gente fica preso aqui dentro. Se alguém precisa de médico ou se remédio acaba, é só ir de barco ou esperar a água baixar, o que demora dias", relata Maria da Silva, 43 anos, dona de casa no bairro Vista Alegre. A prefeitura local e o Corpo de Bombeiros distribuem cestas básicas, mas o acesso segue intermitente e perigoso.
A lista de danos oficiais divulgada pela Defesa Civil é longa e cresce a cada boletim. Em Amajari e Alto Alegre, a lama invadiu estradas vicinais e impediu o transporte escolar, deixando centenas de alunos sem aula. Em Bonfim, na fronteira com a Guiana, a logística de ajuda se complica pela geografia. Em Uiramutã, no extremo norte do estado, as chuvas paralisaram parte das atividades agrícolas e isolaram comunidades indígenas que dependem das trilhas para locomoção.
O comando da Defesa Civil, vinculado ao Corpo de Bombeiros, concentrou as equipes de resgate nas três frentes mais críticas no momento: Normandia, Cantá e Caracaraí. "Nossa prioridade absoluta é o salvamento de vidas e o atendimento a quem está em isolamento total. Estamos usando barcos infláveis e tratores de esteira para chegar onde o caminhão não passa", informou o major responsável pelas operações de campo. A pasta monitora as bacias hidrográficas 24 horas por dia e alerta para o risco de novas cheias nos próximos dias, visto que a capacidade de drenagem natural dos rios está comprometida.
No campo, o prejuízo também é financeiro e afeta a economia local. O relatório preliminar aponta a morte de gado por afogamento em pastagens que viraram lago e a perda total de lavouras de subsistência em áreas de várzea. Produtores de Cantá reclamam que o excesso de água no solo na época da florada pode comprometer a safra de banana e mandioca deste semestre, encarecendo os produtos na feira da cidade.
A previsão meteorológica para os próximos dias indica que as chuvas devem continuar com intensidade moderada a forte em todo o território roraimense. Moradores de áreas de risco ribeirinho são orientados a evitar dormir em barracos baixos e a deixar um kit de emergência pronto com documentos e remédios. Qualquer situação de emergência, como isolamento ou risco de desabamento, deve ser reportada imediatamente pelo telefone 193 da Defesa Civil estadual ou pelos canais oficiais das coordenações municipais.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



