Circular ocupa ruas de Belém com 44 espaços e cheiro de banho de São João
61ª edição do evento reúne exposições, gastronomia e tradição junina nos bairros históricos neste domingo.
O cheiro de alfazema e arruda golpeia o nariz antes mesmo de se ver a placa. É o banho de cheiro de junho, espalhando-se pelas calçadas da Cidade Velha e misturando-se ao som distante de um tambor de carimbó. Neste domingo (7), Belém não dorme; respira por 44 espaços abertos na 61ª edição do Circular, um raio-X visceral da capital paraense que vai do casarão colonial ao quintal independente.
Mais que uma programação dominical, o evento é um mapa vivo da memória e da contemporaneidade da cidade, ocupando três bairros — Campina, Cidade Velha e Reduto — em uma frenta única que desafia o isolamento dos centros culturais. A arquitetura preservada dos casarões de azulejo português serve de cenário perfeito para um diálogo que pulsa entre o patrimônio e o que está sendo criado agora.
Não é só nos museus ou na Associação Comercial do Pará, com sua imponência de piso de mármore, que a cidade acontece. A força do Circular está justamente nessa permeabilidade: o quintal que vira ateliê, a sala que vira palco. São 44 pontos distribuídos em um roteiro que exige fôlego, mas recompensa com a descoberta de uma Belém que muitas vezes o cotidiano apressado esconde.
Nesta edição, o mês junino dita o tom sem cair no óbvio das bandeirinhas de plástico. Aqui, o São João tem cheiro de raiz e o som do ritmado que chama para a roda. A programação promete desde rodas de quadrilha que resgatam a memória dos velhos bacamartes até experiências gastronômicas que aquecem o estômago e a alma. Pense num mingau de milho cremoso, feito no fogo de lenha, ou num terno de pimenta que acompanha um pirarucu frito — o Norte se reinventa no prato.
Para os ouvidos atentos, a diversidade musical vai além do carimbó pé-de-serra. Há espaço para o siriá, o lundu e as experimentações eletrônicas que tomam conta dos galpões independentes. A cidade se mostra polifônica, misturando a ladainha antiga com o beat da periferia em uma mesma rua. São roteiros guiados para quem quer entender a história por trás das fachadas, e feiras criativas para quem quer levar um pedacinho da produção local para casa.
O desafio, portanto, é escolher o caminho. Com horários que se estendem das 8h às 20h, o Circuito convida a uma caminhada longa e devagar. O ideal é começar pela manhã, aproveitar a luz do sol entrando pelas janelas das instituições históricas e derivar para os bares e quintais ao entardecer, quando o calor amaina e a conversa com os donos da casa fica mais fácil.
A 61ª edição do Circular acontece neste domingo (7), simultaneamente nos bairros da Campina, Cidade Velha e Reduto. A entrada é franca e a programação completa está disponível nas redes sociais do projeto. O encontro é nas ruas. Leve chinela, garrafa d'água e disposição para caminhar até onde o som do tambor levar.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



