HQ amapaense 'O menino e a baleia' vence prêmio Angelo Agostini
Obra sem falas, inspirada em esqueleto de jubarte do Museu Sacaca, é premiada no Troféu Angelo Agostini.
O silêncio das páginas de 'O menino e a baleia' carrega o cheiro de maresia e o peso úmido da floresta. Em Macapá, cidade que se espreguiça na linha do Equador, o quadrinista Saruzilla construiu uma narrativa inteira sem usar uma única palavra sequer, mas a magnitude daquela jubarte desenhada ocupa o olhar do leitor com a mesma força avassaladora que o esqueleto real ocupa a maloca do Museu Sacaca. Não é preciso ler para ouvir o rio; basta olhar os traços negros sobre o papel branco.
A HQ amapaense foi escolhida a melhor do ano na categoria quadrinho infantil no Troféu Angelo Agostini, a premiação mais antiga e respeitada do Brasil dedicada aos gibis. Não é um prêmio qualquer. É o reconhecimento oficial de que o Norte também desenha o próprio imaginário, exportando histórias que nascem da margem do rio, longe dos eixos hegemônicos do Sudeste. O prêmio chega a Macapá como uma onda que veio de longe, trazendo visibilidade para uma produção que muitas vezes fica restrita aos circuitos locais.
Saruzilla, que assina a obra como seu primeiro projeto solo, lançou em 2025 este registro de encantamento e perda. O traço acompanha um garoto curioso, daqueles que tropeçam na própria sombra, que se depara com uma baleia imersa nas águas barrentas do Amazonas. É uma cena improvável, real e fantástica ao mesmo tempo, que remete os moradores da capital à força da natureza que sempre nos visita — às vezes de forma trágica, como o encalhe de 2018, outras vezes de forma poética, como nas páginas coloridas deste livro. A ausência de balões de fala transforma a leitura em uma experiência quase cinematográfica, onde o som é escolhido por quem lê.
A inspiração vem de pedra e osso, de memória. O gigante de 250 ossos que repousa no Museu Sacaca serviu de modelo vivo para o desenho. Aquele esqueleto, que ficou famoso ao aparecer na foz do rio há oito anos, virou monumento e ponto de referência na capital. Saruzilla olhou para aquela estrutura exposta na maloca de madeira, viu o tamanho das costelas e a arquitetura da caveira, e de lá extraiu a aventura de uma criança. É um olhar artístico que transforma o museu em ponto de partida, e não de chegada, provando que a arte nasce da observação atenta do que está à nossa frente.
O que encanta na obra é a coragem do silêncio. Em um mundo barulhento de notícias rápidas e redes sociais, uma história muda requer tempo. A leitura é guiada puramente pelo traço e pela imaginação de quem segura a revista. É como contar uma lenda antiga no terreiro, olhando apenas para o movimento do corpo e o brilho dos olhos. O autor diz que o pagamento é a emoção de quem lê, e o Angelo Agostini valida agora que essa emoção viaja pelo Brasil inteiro, cruzando o Equador para tocar quem vive longe da mata, mostrando que o Amazonas cabe nas mãos de qualquer criança.
Macapá respira cultura pelas ruas do Centro Histórico e pelo Complexo do Marco Zero, mas é no Museu Sacaca, no bairro do Igarapé da Fortaleza, que a baleia de verdade segue respirando através da memória. O espaço é uma aldeia recriada aos pedaços, cheia de referências indígenas e ribeirinhas, e a maloca onde o esqueleto jaz é imponente, com teto alto e cheiro de madeira envelhecida. É ali que o visitante pode medir a própria altura em relação ao animal, entender a escala do desastre e da vida.
Para quem quiser ver o que o Brasil inteiro agora premia em papel, a dica é caminhar até o museu. O 'Menino e a baleia' ganhou o Angelo Agostini, mas a origem da arte continua presa ali, protegida da chuva intensa do verão amapaense, esperando o próximo menino curioso passar por baixo da mandíbula do gigante e imaginar sua própria história sem palavras.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



