Dona Onete e Alceu Valença reunem Norte e Nordeste em boteco de Belém
Mestres da música regional se encontraram no Boteco do Bacú, na Cidade Velha, celebrando cultura e gastronomia paraense.
A risada da Dona Onete contagia a mesa do Boteco do Bacú com a facilidade de um carimbó que pega o terreiro inteiro. Em frente aos pratos de peixe frito e aos copos de cerveja suando na madeira da Cidade Velha, foi a mestiçagem sonora em tempo real: o Nordeste encantado de Alceu Valença encontrando a batida de raiz do carimbó quebequense. Não foi almoço protocolar, foi festa de boteco, sem purpurina, só com a cheirosa da farinha e o som de histórias para contar.
O encontro, que ganhou o apelido carinhoso de “encontro de milhões” nas redes sociais, selou a passagem de Alceu Valença por Belém nesta última semana. O pernambucano veio para o show da turnê “80 Girassóis”, no Hangar, mas quem viu a foto publicada sabe: o espetáculo da cultura não acontece só nos palcos gigantes. Acontece também na calçada, na brisa do rio e na conversa de quem faz a música do Brasil tocá-la de verdade.
Maria Ionice da Silva, a Dona Onete, aos 87 anos, continua sendo a matriarca incontestável do ritmo que nasceu nas matas do município de Cametá, no Pará. Ela traz na voz o sotaque de quem pisou em mangueiro e no tabuleiro de feira. Alceu, por sua vez, traz o sol de Pernambuco e décadas de estrada. Quando os dois se juntam, é o Atlas Musical do Brasil se fechando em uma única foto.
O cenário escolhido para o reencontro não podia ser outro. O Boteco do Bacú, na Rua da Trinidade, é um desses lugares que não envelhecem porque o tempo lá é medido em rodadas de petisco e conversas de longo prazo. Foi lá que a dupla provou, provavelmente, os quadradinhos de frango ao molho de maracujá — prato que colocou a casa no mapa do concurso Comida de Boteco. É a gastronomia paraense, aquela que usa maracujá na salgada e tucupi no doce, servindo de ponte entre dois ícones da nossa música.
A repercussão foi imediata, uma chuva de comentários celebrando a cena. Mas o que resta no ar de Belém é menos a viralização e mais o sentimento de pertencimento. É ver nossos ídolos circulando na mesma rua que a gente, tomando a mesma água, comendo o mesmo tucupi. É a prova de que a cultura amazônica não precisa pedir passagem: ela é o anfitriã, ela abre as portas da casa.
Quem quiser seguir os passos da dupla e entender o clima que inspirou o encontro, o caminho é até o coração histórico da cidade. O Boteco do Bacú fica na Rua da Trinidade, 182, na Cidade Velha. Funciona de terça a domingo, a partir das 11h. O menu é extenso, mas o frango com maracujá é um pedido de urgência, assim como deixar o ouvido atento às mesas ao redor — você nunca sabe quando vai encontrar ali o som do próximo encontro que vai parar nos jornais.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



