Processo de escolha do novo bispo de Porto Nacional é sigiloso e pode demorar meses
Fiéis do sul do Tocantins aguardam definição da Santa Sé após renúncia de Dom José Moreira; arcebispo de Palmas assume interinamente a Diocese.
Dona Francisca Luz, 72 anos, sai da missa das 18h na Catedral de Nossa Senhora das Mercês, no centro histórico de Porto Nacional, com uma dúvida na ponta da língua. Desde a última sexta-feira, quando soube pela rádio local da renúncia de Dom José Moreira da Silva, ela pergunta para as amas do terreiro e para o sacristão quem vai pegar o báculo nos próximos meses.
A Catedral, com suas torres góticas que dominam a paisagem da Praça Fausto Sodré, é o coração da Diocese de Porto Nacional. A jurisdição eclesiástica abrange 29 municípios do Tocantins, indo de Pedro Afonso até Dueré, cruzando o Jalapão e o Bico do Papagaio. É um território vasto, onde a presença física do bispo é fundamental para a confirmação do crisma e a ordenação de novos padres, ritos que não podem ser celebrados por qualquer pároco da paróquia.
Com a aceitação da renúncia pelo Papa Leão XIV, a cadeira episcopal está vazia — o que o código de direito canônico chama de "sede vacante". Quem assume o comando interinamente é o arcebispo de Palmas, Dom Pedro Brito Guimarães. Ele terá que dividir a pastoral da capital com a administração da diocese do norte, o que significa viagens constantes de 140 quilômetros pela TO-080, um trajeto que ele já começa a planejar na agenda pastoral.
"A gente fica preocupado, não sabe quem vem, se vai continuar o trabalho de visita às comunidades distantes", diz Francisca, que mora no Bairro São Domingos e frequenta a catedral há três décadas. "O bispo é o pai da gente, é ele que dá a bênção final e a gente quer saber quem vai ser."
O processo para definir o novo pai espiritual, contudo, foge ao controle local. Segundo o chanceler da Cúria Diocesana, padre Thallyson Brenner, a escolha é um assunto de Estado do Vaticano, cercado de sigilo absoluto. Tudo começa na Nunciatura Apostólica em Brasília, representação diplomática da Santa Sé liderada pelo núncio Dom Giambattista Diquattro, que ocupa o cargo desde 2020.
Não há urnas, nem eleições diretas, nem enquetes nas redes sociais. A Nunciatura ouve bispos da região e faz uma sondagem informal sobre o perfil necessário para o Tocantins. São enviados dossiês de três nomes à Congregação para os Bispos, em Roma. O Papa analisa os perfis, pede mais informações se necessário e assina o decreto de nomeação. Pode ser um bispo de outra cidade trazido para cá, ou um padre da própria diocese que será elevado à dignidade episcopal.
Não há prazo legal ou canônico para o anúncio. O processo pode durar dois meses ou dois anos. Enquanto isso, a máquina paroquial gira. As missas continuam, os batismos acontecem, o movimento da Catedral não para. Mas decisões estruturais, como a abertura de novas paróquias ou a liberação de verbas para reformas, ficam em compasso de espera, dependendo da aprovação do administrador apostólico.
Sebastião Ribeiro, 45 anos, motorista de aplicativo e catequista na Paróquia São João Batista, acompanha de perto a transição. Ele diz que a expectativa entre os fiéis do interior é por alguém que entenda a realidade do campo. "Aqui não é Roma, nem Brasília. Aqui a gente precisa de um pastor que agüente o estradão para chegar no Pequizeiro ou em Tocantinópolis", argumenta Ribeiro, enquanto arruma as cadeiras da sala paroquial.
Enquanto o envelope lacrado não chega vindo de Roma, a vida segue seu ritmo normal no centro de Porto Nacional. As portas da Catedral continuam abertas das 7h às 19h para visitação e oração. Para saber a data da posse, os fiéis devem ficar atentos aos comunicados oficiais na Cúria Diocesana, localizada na Rua Riachuelo, número 363, ou ao site da CNRR Regional Norte 2. Até lá, a fé é que sustenta a espera de Dona Francisca e dos milhares de fiéis do sul do Tocantins.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



