Paraense tem registro de 'Presidente da República' na carteira de trabalho
Erro no sistema aponta vínculo indevido em função na Prefeitura de Belém e atrapalha a contagem de tempo para a aposentadoria.
Ellen Guedes, 52 anos, abriu o aplicativo da Carteira de Trabalho Digital na sala de casa, em Belém, numa manhã de domingo, para resolver uma pendência que anda na cabeça de quem passa dos 50: a aposentadoria. Ela tomou o café, pegou o celular e digitou o CPF e a senha. O objetivo era simples: somar o tempo de serviço do período em que trabalhou na Prefeitura. O que ela viu na tela, porém, transformou a consulta burocrática numa cena de teatro. No lugar do cargo de cerimonialista que ocupou entre 2005 e 2006, o sistema do governo federal exibia a função de "Presidente da República". A surpresa fez Ellen largar o celular na mesa. Ela leu de novo. Ali estava, vínculo ativo na antiga Coordenadoria de Comunicação Social (Comus) da Prefeitura de Belém, com data de admissão em março de 2005 e saída em junho de 2006. O salário consignado no erro era de R$ 3.691,98.
"Quando vi aquilo, achei engraçado. Presidente da República recebendo três mil e pouco? Só se fosse de um clube de futebol", comentou ela, recuperando o humor. O susto passou, mas a preocupação técnica instalou-se de vez. Ellen explica que, na época, trabalhava nos bastidores dos eventos do governo municipal, cuidando de protocolo e recepção de autoridades na Comus, bem longe do Palácio do Planalto. O problema, contudo, não é apenas a piada que rendeu status nas redes sociais ao imprimir a tela do celular. O erro de digitação — provavelmente cometido por um servidor do RH da Prefeitura há duas décadas — quebrou a lógica do aplicativo da Dataprev.
Quando ela tenta clicar nos detalhes daquele contrato específico para ver o valor do FGTS ou o tempo exato de contribuição, o sistema falha. A tela carrega e fecha, ou trava. A informação não abre. Isso significa que, para o INSS, aquele período de 1 ano e 3 meses pode ficar "pendurado" ou com dado divergente. Se Ellen for solicitar o benefício agora, o sistema do Gov.br pode não reconhecer automaticamente a contribuição, exigindo que ela entre com um processo de recurso e apresente documentos antigos, como o holerite e a carteira de trabalho física de papel, que felizmente ela ainda guarda em casa na gaveta de cabeceira.
O erro na classificação do cargo (CBO) é mais comum do que se imagina na migração das carteiras físicas para o meio digital. A antiga CTPS verde, que os paraenses carregavam na bolsa, tinha tudo escrito à caneta. Um erro humano de digitação na hora de passar os dados para o sistema antigo do INSS ou da Prefeitura se perpetua por anos sem ser notado, já que ninguém olha a carteira de trabalho todo dia. Só agora, com a facilidade do aplicativo, essas "pedras no sapato" aparecem. Para quem está na corrida final para a aposentadoria, isso é um frio na barriga.
Para Ellen, a tramitação burocrática começa agora. A via mais rápida para corrigir o cargo de "Presidente" para "Cerimonialista" é pelo portal Meu INSS. É necessário selecionar o serviço "Incluir ou Alterar Dados Cadastrais" e, em seguida, a opção "Correção de Dados do Vínculo Empregatício". Ellen vai precisar digitalizar a carteira de trabalho antiga, aquele documento verde desbotado, e o holerite de 2006. Depois, é gerar um protocolo e esperar o cancelamento do registro errado e a inclusão do certo. Quem estiver com o mesmo problema deve ter atenção: alterar o cargo pode mexer na classe de contribuição e, às vezes, disparar uma cobrança de diferença se a empresa pagou um valor menor ao INSS sobre o salário informado.
Enquanto a correção não sai, Ellen guarda o print do "Presidente da República" como recordação. Mas o telefone do 135 já está na lista de contatos rápidos do celular. A aposentadoria não pode esperar por um decreto presidencial de mentira. Reclamações sobre erros na CTPS Digital podem ser feitas pelo portal Meu INSS ou pelo telefone 135.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



