Exposição em Macapá resgata história da imprensa amapaense com acervo digital
Parque Residência abriga exposição com jornais históricos e máquinas antigas, mostrando a evolução da imprensa oficial desde 1940.
O cheiro de tinta seca e papel amarelado tem uma textura específica, de quem guardou segredos por décadas. No Parque Residência, à beira do Rio Amazonas, esse cheiro compete com a brisa da orla de Macapá. Mas são as máquinas antigas de impressão, feitas de ferro pesado e fontes de chumbo, que roubam a cena na nova exposição do acervo digitalizado da imprensa oficial. O som do vento nas palmeiras se mistura com o imaginário do clique-clack das linotipos que, um dia, funcionaram sem parar para imprimir a história do Amapá.
A mostra traz à tona a memória documental de um estado que se formou nas páginas dos jornais. Desde a década de 1940, quando o Amapá ainda era um Território Federal longe dos holofotes nacionais, a imprensa oficial foi o registro civil da administração, da política e do cotidiano. Ver aquelas páginas agora, digitalizadas em alta resolução, é como olhar para um espelho retrovisor: vemos o que fomos, o que prometemos ser e o que mudou na paisagem urbana e social.
Diego Lima, secretário adjunto de Logística, explica que o resgate não é apenas burocrático. "A proposta é mostrar como a imprensa oficial evoluiu desde a década de 1940, até o processo de transformação digital", disse ele, apontando para uma linha do tempo que ocupa toda uma parede do espaço expositivo. A linha do tempo é um mapa vivo dos governadores que passaram por aqui, mas também das crises, das festas e das obras que marcaram o calendário amapaense.
Entre os documentos, há relíquias que despertam a curiosidade de quem gosta de história oral. Há exemplares originais que noticiaram a primeira Expofeira, o evento que mudou a economia local e trouxe o interior para a capital. Há edições que detalham a inauguração de pontes que hoje são essenciais, e crônicas sociais que descrevem modas e costumes que já não existem. É um arquivo vivo da memória administrativa e social, disponível para quem quiser pesquisar.
O curadorismo mistura o analógico e o digital de forma poética. Ao lado das estações de tablet onde se pode navegar por milhares de edições, estão as máquinas que fizeram o trabalho pesado no passado. Prensas manuais, máquinas de encadernação e tipos móveis expostos como esculturas de uma era industrial que, no Amapá, teve seu ritmo próprio. O peso do metal contrasta com a leveza da nuvem onde agora esses arquivos estão salvos contra o tempo e a umidade.
A interatividade é o ponto alto para o visitante moderno. Não se trata de uma exposição estática, de "não pode tocar". O público é convidado a pesquisar datas de aniversário, nomes de familiares que talvez tenham aparecido numa coluna social ou conferir o discurso de posse de um governador do passado. É a história particular de cada um cruzando com a história oficial do estado.
A exposição está instalada no Parque Residência, um espaço de convivência que reúne famílias inteiras nos fins de semana. O horário de funcionamento acompanha o movimento do parque, permitindo que a visita seja um passeio, não apenas uma parada obrigatória de estudantes. É uma chance de entender como o Amapá se construiu palavra por palavra, notícia por notícia.
Quem passar por Macapá pode conferir a mostra no Parque Residência, localizado na Avenida Beira-Mar. A visitação é gratuita e o espaço está aberto de terça a domingo. Vale a pena levar o tempo necessário para ler uma manchete antiga, tocar no ferro frio das máquinas e sair de lá sabendo um pouco mais sobre o papel que a imprensa impressa teve — e ainda tem — na formação da identidade amapaense.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



