Projeto Linhas de Identidade leva grafite e memória ao interior do Pará
Muralista Bino Sousa promove oficinas gratuitas e cria murais coletivos em cidades como Marabá e Parauapebas, transformando memórias locais em arte.
O cheiro do solvente da tinta spray mistura com o pó da rua em dias de sol quente. Bino Sousa segura a lata na altura do peito, testa a pressão com um "tsst" rápido na chapa, e o cinza do muro começa a receber o rosto de uma parteira que já nem anda mais por ali. O som característico da bolinha de metal dentro da lata, chacoalhada ritmadamente antes do jorro, é a batida que marca o tempo da criação no meio da rua.
É esse o som que define o "Linhas de Identidade", projeto que o muralista leva agora para o coração da Amazônia. Não são apenas pinturas; são arquivos a céu aberto. A ideia é transformar as memórias de parteiras, pescadores, ribeirinhos e trabalhadores rurais em enormes painéis que contam a história daquele pedaço de mundo sem precisar de bibliotecas.
Bino, de 40 anos, natural de Santa Inês, no Maranhão, mas com o coração e o ateliê plantados em Marabá, há duas décadas toma conta das fachadas do interior. Ele diz que o grafite na floresta tem outra urgência. Não é só vandalismo ou estética urbana importada; é o registro de uma identidade que o concreto muitas vezes tenta soterrar.
As oficinas gratuitas, que já começaram a circular, são o pulo do gato. Bino não chega como o artista salvador que desce do elevador. Ele chega para ensinar o jovem da periferia a segurar a lata, a regular o bico, a entender a proporção, mas sobretudo a ouvir o vizinho. A rota passa por São Pedro da Água Branca e Miranda do Norte, no Maranhão, antes de cruzar a fronteira para o Pará.
A rota no Pará tem um peso especial. Marabá, pulsante e cruzada por águas barrentas, e Parauapebas, berço da mineração no Carajás, são cidades que sofrem com a estereotipia. O projeto quer rasgar o rótulo de "cidade do ferro" ou "caos urbano" para revelar o matiz humano. O grafite, com suas cores vivas e traços fortes, é o veículo perfeito para reescrever a narrativa visual desses municípios.
Em Marabá e Parauapebas, o desafio é traduzir em cor a alma desses lugares. O projeto vai ocupar praças e escolas, convidando a comunidade para decidir quem merece o retrato na parede. Pode ser a dona do tucupi da feira, o mestre de carimó da esquina ou o canoeiro que desce o rio todo dia. É uma forma de devolver o olhar para quem constrói a cidade.
Bino conta que, em cada oficina, surge uma história que não está nos livros de história oficial. O grafite vira, então, esse instrumento de resistência suave, pintando a dignidade de quem sobrevive na Amazônia. Quem quiser ver o muro ganhar cor deve ficar atento. As inscrições para as etapas em Marabá e Parauapebas estão abertas pelas redes sociais do projeto. A pintura está prestes a começar, e a cidade é a tela.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



