Último Curral do Garantido em Manaus ensaia a guerra cultural de Parintins
Sambódromo foi tomado por ritmo vermelho e branco; torcida testa toadas e coreografias antes da travessia para a ilha.
O couro do surdo ainda estremece sob a palma da mão quando o silêncio volta. Na noite de sexta-feira (5), o ar do Sambódromo de Manaus não estava carregado apenas pela umidade típica de junho, mas por uma eletricidade vermelha. O último Curral do Boi Garantido na capital funcionou como uma válvula de escape, um ensaio geral da festa que vai paralisar o Amazonas no final do mês. Não era apenas um show; era a galera encarnada afinando o coração para a travessia do rio.
A "marujada" desfilou na pista, e na arquibancada, o reflexo foi imediato. O Comando Garantido, essa falange de torcedores que veste a camisa como se fosse um fardamento de guerra, pintou o cinza do concreto com as cores do boi. A Batucada foi o destaque da noite, mas foi um bolo com farinha de guerra. O ritmo pesado, cadenciado, arrastou os pés de quem estava em cima, fazendo a arquibancada balançar em uníssono. É desse balanço que o Garantido tira a força para pisar forte na terra do Bumbódromo. Quando a bateria entrou, o concreto parecia amolecer, aceitando a batida como se fosse música que nasce da própria terra.
Durante as semanas de ensaio em Manaus, um ritual silencioso aconteceu: o aprendizado das novas toadas. Não se ouve a letra oficial fora do Bumbódromo, é uma lei não escrita, mas a melodia, a batida, o "sui" dos instrumentos — isso se ensaia. Nos Currais anteriores, a torcida absorveu essas nuances. Na sexta-feira, a prova final. Quando a levada do ano começou, não houve erro. A plateia sabia onde entrar, onde acelerar, onde soltar o grito de guerra. É uma comunhão que só quem nasce na beira do rio entende: a música não está só no palco, está na água, no sangue, no suor que escorre pela têmpora.
O coordenador Jorge Henrique, entre um holofote e outro, comandava o espetáculo das pessoas. Ele sabia que aquela noite era a despedida. Depois disso, Manaus vira um camarote distante. A ação se transfere para Parintins. A expectativa que tomou conta do Sambódromo é a mesma que agora toma conta das agências de viagem e dos cais de embarque. A "Galera" já organiza os grupos, divide as despesas da barca, confere se o tecido da fantasia aguenta o vento da ilha. Não é apenas uma viagem de turismo; é uma peregrinação.
A festa em Manaus tem um gosto de prévia, mas uma prévia com a mesma intensidade do prato principal. O som do "chocalho" e da "maraca" ecoou até os bairros vizinhos, lembrando que o Festival não é um evento de passarela, é uma celebração de identidade brutal. Cada pessoa no Sambódromo, seja da fileira 1 ou da arquibancada popular, carrega uma história com o boi. Seja porque o avô foi marujada de verdade, ou porque a mãe levou para ver a luz ainda criança. O Garantido não é apenas um time; é a família que a gente escolhe no último fim de semana de junho.
Agora, o "Último Curral" é memória. O que sobra é o tic tac do relógio para os dias 26, 27 e 28 de junho. A expectativa mudou de tom: de ensaio para execução. A Batucada descansou os instrumentos, mas a cabeça da torcida continua batucando o ritmo da ansiedade. Na próxima parada, não há mais testes. A arena de terra vai estar lá, esperando para ver se o vermelho e branco consegue transformar toda essa energia manauara em mais uma estrela na testa do boi. Até lá, é tempo de arrumar as malas, conferir o protetor solar e torcer para o vento soprar a favor — ou para a toada ser boa o bastante para não precisar de vento nenhum.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



