Festival de Parintins 2026: o ritual dos bois e a vibração do Bumbódromo
Entre 26 e 28 de junho, a ilha no meio do Rio Amazonas vira o palco da maior disputa folclórica do país, onde Garantido e Caprichoso renovam um duelo secular.
O cheiro de tinta guache se mistura com o mormaço do Rio Amazonas nas arquibancadas do Bumbódromo. São 35 mil pessoas, a maioria com o rosto pintado de azul ou vermelho, prontas para gritar até perder a voz. Quando o apresentador anuncia a entrada da marujada, o concreto treme. Não é metáfora: a batida pesada do surdo e o ritmo frenético dos tambores fazem o chão da arena vibrar sob os pés da galera. É nessa ilha a 400 quilômetros de Manaus que o tempo para entre os dias 26, 27 e 28 de junho para ver quem leva o título.
O Festival de Parintins é mais do que uma festa; é uma ópera popular que traduz a floresta em palco, som e cor. A disputa, que agora ocupa o centro de uma cidade inteira, começou de forma modesta no início do século XX, pelas ruas de terra da então Vila de Parintins. De um lado, Lindolfo Monteverde criou o Boi Garantido, de coração vermelho e branco. Do outro, os irmãos Roque, Beatriz e Pedro Cid deram vida ao Caprichoso, o da estrela azul e branca. Eram brincadeiras de terreiro, desafios de viola e versos improvisados que cresceram até virar o maior espetáculo folclórico a céu aberto do mundo.
Apesar de ter raiz no Bumba Meu Boi maranhense, o boi-bumbá amazonense engoliu a floresta e ganhou personalidade própria. Aqui, as lendas não são apenas contadas, elas são encenadas com a grandiosidade da Amazônia. A Cobra Grande, o Boto, a Matinta Perera e rituais indígenas ganham vida em alegorias gigantes que circulam na arena, enquanto o som da marujada — aquele coral de vozes masculinas que marca a identidade dos bois — ecoa como um cântico sagrado. É a síntese da cultura de um povo que vive à beira do rio, entre o sagrado e o profano.
Para quem vai pela primeira vez, a experiência é sensorial e avassaladora. A chuva de cacetes — chocalhos de plástico que a galera usa para marcar o ritmo — cria uma barulheira ensurdecedora de alegria. Há o momento de silêncio respeitoso quando a lenda é contada, e o estouro de gritos quando o Boi levanta. Não há turista passivo em Parintins; ou você é do Garantido, ou você é do Caprichoso, ou você aprende a escolher um lado até o fim da noite.
Chegar até lá exige um mergulho na logística da floresta. Não há estrada asfaltada que leve diretamente a Parintins. O caminho é fluvial, de barco ou balsa, cruzando as águas barrentas do maior rio do mundo. Essa travessia é parte do ritual, uma forma de deixar o mundo lá fora e entrar no tempo mítico da ilha. Em 2026, a expectativa é que o Bumbódromo receba dezenas de milhares de visitantes para ver o desfecho de mais um capítulo dessa rivalidade centenária.
O festival acontece no Bumbódromo (Avenida Amadeu Gebara, s/nº), com portões abrindo geralmente às 18h. Os ingressos costumam esgotar rápido, e é recomendado garantir passagem para a barco com antecedência. Se o plano é sentir o peito estufar com o hino do seu boi e vibrar com o chão tremendo, a mala deve estar pronta. A ilha espera.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



