Duelo de 42 corações: conheça os 21 itens que decidem o Festival de Parintins
Não é apenas um boi contra o outro. São 21 quesitos de cada lado julgados por especialistas que entendem de folclore, batucada e cenografia.
O cheiro de poeira, suor e tinta acrílica no ar condicionado do Bumbódromo é o primeiro sinal. Mas é o brilho da estrela azul furando a neblina noturna que diz que a guerra começou. Em Parintins, no fim de junho, o Boi-Bumbá não é só folclore: é anatomia viva. Caprichoso e Garantido não entram na arena apenas com músculos de torcida; entram com 42 almas diferentes, divididas em 21 itens de cada lado, dissecados minuciosamente por jurados que viram e ouviram tudo antes.
Estamos a menos de um mês do 59º Festival, marcado para os dias 26, 27 e 28 de junho, e a tensão já paira sobre o Rio Negro. O que o espectador vê como um espetáculo gigantesco, a comissão técnica vê como um quebra-cabeça de peças que encaixam perfeitamente ou fazem o todo desabar. No microfone, a responsabilidade é gigantesca: Edmundo Oran, do Caprichoso, e Israel Paulain, do Garantido, são as vozes que não podem falhar. O item 'Apresentador' exige controle de palco, narração poética e a capacidade de traduzir a fábula para a plateia exausta de emoção.
Começamos pelo 'Bloco A', o coração e a boca da festa. Junto com o apresentador, entra o ritual do 'Levante', onde o boi ganha vida. A Marujada e a Tribal, batendo o pé, entrando no ritmo da batucada, são a base. O 'Toque' dos tambores precisa ser uníssono, uma respiração só que faz o chão de cimento tremer. Não é barulho; é percussão tecnicamente dissertada sobre o asfalto, exigindo afinação perfeita dos surdos e caixas que ecoam pelos bairros da cidade.
Depois, vem o 'Bloco B', a pele e o osso visual. A 'Cenografia' tem que transformar o gramado em floresta, sertão ou fundo do mar em segundos. Os 'Figurinos' das 400 ou 500 pessoas em cima da arena não podem apenas brilhar; precisam contar história através do tecido. Aqui entra o 'Aranauá', a gigante que dança na ponta dos pés, e o 'Estandarte', a bandeira que carrega a honra da agremiação. É aqui que o Design dos Bois ganha vida, materializando o sonho dos artesãos que passaram meses colando lantejoulas sem dormir, em um trabalho invisível para quem vê apenas o show de luzes.
Por fim, o 'Bloco C', a alma que articula tudo. A 'Coreografia' precisa ser gestual, todos os corpos se movendo como um único organismo, sem colisões e sem cantos vazios. A 'Organização' do espetáculo, onde o tempo não pode errar nem um segundo. E os 'Motivos', a narrativa que justifica aquela noite inteira de festa. Quem julga tudo isso não é apenas um curioso. São grupos de três jurados por bloco, especialistas com referencial teórico em folclore. Eles olham para a 'evolução' do boi e veem história, antropologia e estética. Não é apelo emocional que conta, é técnica embasada na tradição amazônica.
Quem for a Parintins neste ano, prepare os ouvidos. O duelo do Bumbódromo é um jogo de xadrez onde cada peça é cantada, dançada e vestida. A verdade é que não existe vencedor sem o acerto perfeito desses 21 itens. É a soma de detalhes — o brilho do nariz do boi, o grito do apresentador, o passo firme da indígena — que faz a galera erguer a taça na madrugada.
O 59º Festival Folclórico de Parintins acontece nos dias 26, 27 e 28 de junho, no Bumbódromo Alberto Ribeiro. As entradas já estão esgotando em Manaus e na própria ilha, mas o show todo é transmitido pela internet para quem não consegue atravessar o rio. Chegue cedo, o portão abre antes do sol cair.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



