Lula deixa Amazonas sem alinhar chapa e PT fica sem vaga no Senado
Visita de Lula a Manaus não garantiu lugar para Marcelo Ramos; Omar Aziz e Eduardo Braga mantêm controle da base aliada no estado.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou na quarta-feira uma agenda de 48 horas em Manaus sem conseguir costurar a inclusão do candidato do PT ao Senado na chapa que deve oficialmente apoiar sua reeleição no Amazonas em 2026.
A indefinição expõe a fraqueza estrutural do petismo no estado e confirma a liderança política do senador Omar Aziz (PSD) e de Eduardo Braga (MDB), que controlam as bases municipais e o empresariado local necessários para a vitória da coligação.
O diretório estadual do PT oficializou a pré-candidatura do ex-deputado federal Marcelo Ramos à disputa por uma das duas vagas da representação amazonense no Senado Federal. No entanto, o nome não obteve aval de Aziz, candidato ao governo pelo PSD, nem de Braga, que busca a reeleição. Sem o apoio dessas duas legendas, Ramos fica fora da "chapa única" que o Planalto deseja construir para maximizar a eficiência do voto na legenda de Lula.
A disputa pelo espaço na chapa majoritária dominou os bastidores da visita. Na noite de terça-feira, Aziz e Braga promoveram um jantar privado para o presidente com a presença de cerca de 350 convidados. A lista de participantes incluiu prefeitos, ex-prefeitos, deputados estaduais e federais, líderes empresariais e sindicais, além de autoridades religiosas — um demonstrativo de força que mostrou ao comitê nacional do PT quem realmente comanda o território eleitoral no interior.
Marcelo Ramos estava presente ao evento, mas interlocutores afirmam que o tema de sua inclusão na champa não foi formalizado na conversa com o presidente. O silêncio é interpretado como um sinal de que a decisão sobre a vaga do Senado pertence ao PSD e ao MDB, cabendo ao PT apenas aceitar a composição para não quebrar a aliança de governo.
Durante o dia, Lula manteve a agenda oficial voltada a inaugurações e anúncios de investimentos bilionários para o estado, além de visitas a estaleiros e entregas do programa Minha Casa, Minha Vida. A contrapartida federal esperada por Aziz e Braga é o fluxo de recursos para obras e social, que serve de moeda de troca política para mobilizar as bases em 2026.
A articulação no Amazonas replica o cálculo pragmatico do Palácio do Planalto para outros estados do Norte: priorizar legendas locais fortes (como o PSD e MDB) em detrimento do PT, onde o partido não tem cacife eleitoral próprio para garantir a vitória sozinho. O PT do Amazonas sofre com a falta de penetração no interior e depende da blindagem de Lula para sobreviver politicamente no cenário estadual.
A ausência de um acordo definitivo antes da saída de Lula adia a resolução do impasse. O comitê de campanha nacional precisa da definição rápida para começar a logística de propaganda e alinhamento de comitês no interior. Quanto mais tempo a disputa entre Ramos e a base de Aziz durar, maior o desgaste para a imagem de unidade que o palácio tenta vender.
O próximo movimento institucional deve ser uma reunião em Brasília entre os líderes nacionais do PT, PSD e MDB para tentar arbitrar a vaga. Enquanto isso não ocorre, Marcelo Ramos segue como pré-candidato oficial de um partido que, na prática, não tem a garantia de espaço no palanque do presidenciável.
Eliana Castro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



