Manaus articula sediar Bioeconomy Amazon Summit em 2027
Fundação Rede Amazônica e organizadores do evento discutem cooperação institucional para trazer cúpula à capital amazonense, com foco no Mercado de Origem.
Criado em 2023, o Bioeconomy Amazon Summit (BAS) mira o ano de 2027 para realizar sua edição em Manaus, um movimento que representa a tentativa da capital amazonense de transitar da indústria eletroeletrônica de montagem para a economia de baixo carbono. A Fundação Rede Amazônica e a organização do evento deram o primeiro passo nesta quarta-feira (17) para viabilizar a parceria que deve trazer a cúpula para a cidade, embora ainda não haja contrato assinado ou garantias financeiras fechadas.
Para dimensionar a importância dessa articulação, é preciso olhar para o mapa das cidades do Norte. Enquanto Belém (PA) se prepara para ser o centro das atenções globais em 2025 com a COP30, Manaus busca manter a relevância na agenda pós-conferência. O BAS não é apenas um evento de palestras; é um fórum de negócios que conecta cientistas, empreendedores e investidores. Trazer o evento para o Amazonas significa competir diretamente com outros polos de inovação que estão surgindo na região, como o hub de tecnologia de Belém.
Quem ganha com essa possível chegada? O setor de serviços de alto valor agregado. Hotéis, operadoras de logística e, principalmente, as startups locais que vivem de aplicação de ciência na floresta. Quem perde, por enquanto, é a tradicional indústria da Zona Franca de Manaus (ZFM) que, apesar de dominar o PIB estadual, ainda tem pouca conexão com a cadeia da bioeconomia. Se o BAS acontecer, a pressão sobre o Polo Industrial para se adaptar aos critérios ESG (ambientais, sociais e de governança) deve aumentar.
Historicamente, Manaus sempre dependeu de incentivos fiscais federais — o modelo da ZFM, criado nos anos 1960. A aposta na bioeconomia é uma tentativa de diversificar a matriz econômica sem depender apenas da renúncia fiscal do ICMS. O Mercado de Origem, citado como uma das sedes potenciais, simbolicamente representa essa ponte: é um espaço que une cultura regional (o saber tradicional) e inovação, exatamente o perfil que o BAS busca.
Segundo Mariane Cavalcante, diretora-executiva da Fundação Rede Amazônica, a reunião serviu para alinhar as visões institucionais. "Discutimos oportunidades de cooperação e estratégias para fortalecer a agenda da bioeconomia na Amazônia", informou a diretora em nota. Do outro lado, Guilherme Manechini, CEO do BAS, avaliou a infraestrutura local. A presença de Matheus Aquino, coordenador de projetos, indica que a Fundação já está mapeando os custos operacionais de sediar um evento desse porte.
Contudo, é preciso manter o ceticismo econômico. Articações institucionais são o primeiro degrau, mas o degrau do financiamento é o mais alto. Eventos internacionais demandam aporte de verba pública ou patrocínios priv robustos. Sem a confirmação de investidores âncora, o risco de o projeto não sair do papel é real. Além disso, a economia amazonense ainda sente os efeitos da inflação local, que impacta o custo de serviços, tornando a cidade mais cara para receber grandes congressos se comparada a capitais do Centro-Sul.
O próximo passo decisivo deve ser a definição do edital de patrocínio e a viabilidade de uso do espaço público no Mercado de Origem. Se a parceria avançar, o BAS 2027 pode servir como um termostato para medir a temperatura do capital privado interessado na Amazônia pós-COP30.
Renato Lobo
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



