Menos é Mais leva pagode e câmeras para o Mercado de São Brás
Após lotar o Mangueirão, banda grava audiovisual em pleno mercado popular de Belém com entrada restrita a cortesias.
O cheiro de tucupi e pimenta-de-cheiro que exala das bancas do Mercado de São Brás costuma mandar todo mundo direto para o almoço. Na manhã desta terça-feira, porém, o aroma competia com o som do cavaquino afinado na calçada. O grupo Menos é Mais não veio comprar tempero, veio gravar. Eram 11h, o sol já batia forte nas telhas de amianto, mas o calor humano da multidão que garantiu uma das cortesias nominais era ainda maior, sufocando qualquer preguiça com a levada do pagode.
Não é qualquer dia que um som de porte para de ocupar o estacionamento caótico de São Brás para virar clipe. O audiovisual faz parte do projeto "Molho é do Brasil", uma ousadia de levar o samba para os lugares onde o povo de fato circula, longe dos camarins refrigerados e do silêncio exigido dos estúdios de gravação. Foi ali, entre caixas de jambu, sacos de farinha de braba e o vai-e-vem de compradores apressados, que a banda montou a base para rodar as câmeras.
A escolha do lugar não é um atirar no escuro. Três dias antes, o mesmo grupo tinha esgotado o estádio do Mangueirão, na periferia de Belém, com a turnê "Churrasquinho". Pular do estádio para o mercado de bairro é a prova de que o Menos é Mais não perdeu a noção de onde a batida nasce e quem a sustenta. No São Brás, a acústica é outra, mais crua e do povo: o som rebatindo nas paredes brancas, o barulho de fundo das negociativas de peixe e o coro de quem veio de longe, batalhando o trânsito da BR, só para estar perto.
A banda, que no Pará já virou sinônimo de trilha sonora para uma geração que cresceu ouvindo pagode na rádio, trouxe a estrutura inteira. Mas o foco era a intimidade e a segurança da galera. Não havia catracas, nem ingressos vendidos na bilheteria. Tudo era cortesia, retirada com antecedência e rigorosamente nominal. A medida, explicada com carinho nas redes sociais, protegia a torcida de golpistas que sempre aparecem quando o assunto é show gratuito ou restrito. "Não compre ingresso de ninguém", avisaram, enquanto os seguranças conferiam documento na entrada, um a um.
Para quem conseguiu a lista, o prêmio foi ver de perto a formação sem filtros. A levada do pandeiro marcando o tempo, a mão direita do cavaquinista deslizando veloz nas casas mais agudas, o rebolo do tantã criando aquele terreno movediço onde é impossível ficar parado. Eram as músicas que todo o Pará conhece de cor, mas que ganham uma nova textura quando o cenário é o mercado mais popular da capital. O suor rostava junto com a batida do surdo, e o cheiro de temperos secos impregnava as roupas dos que vieram cedo, testemunhas de um espetáculo que não vai passar na TV aberta, mas vai ficar na memória do concreto.
O projeto "Molho é do Brasil" promete seguir levando essa cozinha musical para outros cantos de Belém e do interior, registrando o pagode onde ele acontece. Enquanto as câmeras rodavam, o público respondia em coro, transformando a feira comum em palco sagrado por poucas horas. É o samba mostrando que, no Norte, ele se mistura com tudo, até com a feira da semana, sem perder a graça nem o gingado.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



