Morango do amor resiste ao hype e vira clássico de junho em Boa Vista
Um ano após filas gigantes e viralização, o doce de fruta e chocolate mantém espaço nos arraiais de Roraima, agora com rotina estabelecida e público fiel.
O estalar da casca de chocolate ao leite é o som que anuncia o início da festa na boca. Antes de doce, é textura: o frio da fruta encostando na língua, o choque térmico do chocolate ainda morno derretendo, o crocante da granola que desmancha no céu da boca sob as luzes coloridas da barraca. No coração da praça de alimentação do Boa Vista Junina, esse ritual se repete centenas de vezes por noite. O Morango do Amor, aquele que virou febre nacional saindo do calor de Roraima, completou um ciclo de viralização e decidiu ficar. Não é mais histeria de multidão, mas virou opção certa de quem quer um luxo urbano no meio do arrasta-pé.
Diferente de 2025, quando o doce era motivo de peregrinação e filas que dobavam quarteirões, o arraial deste ano respira um ar mais de convivência. A febre das redes arrefeceu, mas o paladar local aprovou e convidou o prato para ficar na mesa permanente. O doce divide espaço agora com a canjica quente, o milho verde assado na brasa e o bolo de macaxeira, formando uma trilogia de pesos pesados da gastronomia de rua junina. O que parecia uma loucura passageira se consolidou como uma parada obrigatória para quem frequenta a festa.
Andriely Duarte, 25 anos, bancária nos dias úteis e festeira nas noites de junho, conhece o peso da espera. No ano passado, ela integrou aquelas fileiras intermináveis, suportando o tempo e a ânsia, só para ver a panela esvaziar minutos antes de chegar sua vez. A frustração virou meta. "Ano passado eu enfrentei a fila, quando chegou não tinha mais e aí fiquei nessa vontade", conta ela, segurando o palito com o sorriso de quem cumpre uma promessa. "Aí ontem eu vim no arraial, tentei vir aqui de novo e já tinha acabado. Cheguei cedo hoje para garantir o meu". Não é só fome, é o fechamento de um ciclo pessoal com a festa.
Atrás do balcão, a dinâmica mudou. Tia Gladys, figura conhecida das noites de Boa Vista, opera as panelas com uma cadência que mistura pressa e carinho. O segredo está no ponto exato do chocolate — nem tão líquido que escorra pelo braço, nem tão duro que quebre o morango ao morder. As versões se multiplicaram: agora há opções com chocolate branco, banho de confeitos coloridos e aquelas cobertas com uma chuva fina de doce de leite. O preço, que oscila entre R$ 10 e R$ 20, é considerado um "presente" acessível no orçamento da festa.
O interessante é como o Morango do Amor dialoga com o clima de Roraima. Enquanto o Sudeste associ junho a fogões e quentões, por aqui a festa acontece no calor seco da região. O doce refresca, mas sacia. É o contraste que define a culinária local: o frio da estrutura transportando o sabor da fruta. O doce deixou de ser "coisa de internet" para ser parte da paisagem sonora e olfativa do arraial, misturando seu cheiro de cacau ao aroma de pólvora dos fogos de artifício que estouram lá no céu.
Para quem ainda não provou ou quer repetir a dose de nostalgia, o caminho é ir sem pressa, mas com horário. A barraca da Tia Gladys fica na área de alimentação principal, perto do palco onde a quadrilha ensaia os passos. O estoque acaba, mas renova. A dica é chegar antes das 20h, garantir o morango e encontrar um banco para ouvir o forró enquanto o chocolate derrete. O Boa Vista Junina vai até o fim do mês, e o Morango do Amor promete estar lá, firme na casca, doce por dentro.
Karina Pinheiro
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



