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Seu Jorge visita Resex Chico Mendes e canta ao lado de Raimundão em Xapuri

Cantor carioca esteve no Acre para conhecer o trabalho de famílias extrativistas e trocou versos com o primo de Chico Mendes.

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Karina Pinheiro
Acre · AM
18 de jun. de 2026
publicado
3 min
de leitura · 624 palavras
Seu Jorge e Raimundão conversam em varanda de madeira na Reserva Extrativista Chico Mendes.
Cantor carioca esteve no Acre para conhecer o trabalho de famílias extrativistas e trocou versos com · Foto: Redação Nortícia

O som do violão ecoa diferente quando encostado na seringueira. Na Reserva Extrativista Chico Mendes, em Xapuri, no interior do Acre, as notas da “Burguesinha” ganham um ritmo de rio, preguiçosas e profundas, misturando-se ao zumbido da floresta e ao bater de corações de quem vive da borracha há gerações. Seu Jorge não subiu num palco iluminado nesta quarta-feira (17); ele sentou-se na varanda de madeira de Raimundão, olhou para o verde impenetrável e ouviu histórias que não estão nas letras de samba, mas na cadência da fala do povo da floresta.

A visita do cantor carioca ao Acre não é apenas uma passagem turística, é o cruzamento respeitoso de duas periferias: a favela de Rio de Janeiro e a floresta amazônica, ambas historicamente marginais e ambas ricas em cultura. No seringal, o encontro foi despojado, sem tapete vermelho, apenas com o tapete de folhas secas e a hospitalidade de quem recebe o mundo de braços abertos, mas com os pés firmes na lama do barranco.

Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, é o anfitrião. Primo de Chico Mendes, ele tem na face o mapa das décadas de luta e na voz o peso de quem carrega o legado do “Empate”. Aos 76 anos, o seringueiro e líder ambiental recebe o artista não como uma celebridade, mas como um aliado na tarefa de mostrar que a floresta é viva e produtiva quando se mantém em pé. A conversa rola solta, alterna entre risos e relatos da resistência extrativista, enquanto o café é servido quente na cuia.

Xapuri é um lugar sagrado para a história ambiental do Brasil. Foi lá que Chico Mendes organizou os empates, impedindo a derrubada de árvores e ensinando ao mundo que o seringueiro não é um homem solitário, mas parte de uma comunidade coesa. Hoje, Raimundão continua esse trabalho, agora focando no turismo de base comunitária. A ideia não é transformar a Resex em um parque de diversões, mas sim levar pessoas de fora para entender o valor da floresta, dormir em barracas no meio do mato e acordar com o canto do macaco-prego.

Para Rogério Mendes, filho de Raimundão, a presença de um artista da envergadura de Seu Jorge é um ponto de luz. “É um momento único para a gente”, disse Rogério, destacando que a visita faz parte de uma ação editorial para divulgar a vida das famílias extrativistas. É a cultura popular encontrando a cultura de massa, sem perder a autenticidade. É mostrar que o acreano faz arte ao manejar a seringa, ao cortar a castanha, ao contar causos na beira do fogão a lenha.

No vídeo postado nas redes sociais, vê-se o contraste harmonioso: Seu Jorge, com sua postura leve, entoando sucessos, e ao redor, os rostos marrom-terra do povo de Xapuri, atentos e participando. Não há grife, não há produção de TV, apenas a luz natural filtrada pelas copas das árvores e a autenticidade de quem sabe que sua maior riqueza é a biodiversidade e a memória afetiva do lugar. O cantor ainda postou uma foto do Rio Acre, com a cor barroca que define a identidade visual do estado.

Quem se sentir inspirado a trilhar o mesmo caminho precisa saber que Xapuri exige tempo. A cidade fica a cerca de 180 km de Rio Branco, e o acesso à Resex Chico Mendes é feito por estradas de terra que desafiam qualquer suspensão de carro nos dias de chuva. Mas a recompensa é imaterial: é o silêncio que ensina a ouvir, é o cheiro da copaíba e a possibilidade de dormir no mesmo chão onde Chico Mendes sonhou com uma Amazônia inteira. Para visitar, é preciso entrar em contato com a Associação dos Seringueiros e Agricultores de Xapuri (ASASEX), que organiza as visitas às colocações.

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◆ Repórter · Nortícia Cultura

Karina Pinheiro

Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.

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