PF cumpre mandados contra grupo que lavra R$ 200 mi via pecuária no Acre
Investigados usavam cadeia da carne bovina para ocultar valores de facção do RJ; justiça bloqueia bens e rebanhos.
A Polícia Federal no Acre deflagrou na manhã desta quarta-feira (27) a Operação Rota do Fim, ação coordenada que visa desarticular uma organização criminosa suspeita de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de entorpecentes. Segundo a PF, o grupo utilizou o setor da pecuária bovina como fachada para movimentar mais de R$ 200 milhões desde o ano de 2022. As ordens judiciais, expedidas pela Vara de Delitos de Organizações Criminosas da Comarca de Rio Branco, resultaram no cumprimento de seis mandados de prisão preventiva e 30 de busca e apreensão.
A atuação da organização não se restringiu ao território acreano. Devido à capilaridade do esquema, a operação foi simultânea em Rondônia, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba e Mato Grosso. A escolha da pecuária como mecanismo de lavagem, segundo os investigadores, deve-se à complexidade inerente à cadeia produtiva da carne, que envolve desde a aquisição de insumos e o manejo de rebanhos até o processamento em frigoríficos e a comercialização em leilões. Essa rede de transações dificulta o rastreamento da origem ilícita dos recursos.
As investigações apontam que a organização mantém vínculos operacionais com uma facção criminosa com sede no estado do Rio de Janeiro. O dinheiro do tráfico seria injetado no mercado legal por meio de empresas de fachada ou de empresas legítimas cooptadas pelo grupo, que emitiam notas fiscais e realizavam transações financeiras aparentemente regulares para justificar o movimento de capital. O modus operandi inclui a compra de gado “boa” — animal sem registro formal ou documentação duvidosa — e a revenda com documentação fraudulenta, além da sobrevalorização de arrobas em transações entre laranjas.
O inquérito aponta ainda para a utilização de interpostas pessoas, os chamados “laranjas”, para figurar como proprietários de fazendas e contas bancárias, dificultando a identificação dos beneficiários finais. A operação buscou perfurar esse véu corporativo para alcançar os comandantes do esquema, que se valiam da estrutura do agronegócio para dar aparência de legalidade ao capital.
Durante o cumprimento dos mandados, três indivíduos foram presos em flagrante pela posse ou porte ilegal de arma de fogo. A justiça federal determinou ainda um conjunto abrangente de medidas assecuratórias visando a neutralização da capacidade econômica do grupo. Foram bloqueados imóveis rurais e urbanos, veículos, contas bancárias e, crucialmente para a investigação, rebanhos bovinos identificados como pertencentes aos investigados. O bloqueio dos animais visa impedir que a atividade-fim da lavagem continue a gerar renda para a organização.
Os crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa são previstos na Lei 9.613/98 e na Lei 12.850/13, respectivamente, com penas que podem superar dez anos de reclusão. A prisão preventiva foi decretada sob a fundamentação de garantia da ordem pública e econômica, dada a periculosidade do grupo e a capacidade de reinvestimento dos lucros ilícitos.
A operação contou com o apoio de outras unidades da PF nos estados envolvidos e de peritos criminais para a análise de documentos contábeis e fiscais. O objetivo é mapear todo o fluxo financeiro e identificar a extensão da participação de cada membro da organização. Os investigados alvos da prisão preventiva serão conduzidos à Superintendência da PF no Acre para o interrogatório inicial, enquanto os presos em flagrante passarão pela audiência de custódia.
O inquérito policial, que corre em sigilo de justiça, buscou reunir provas materializadas em interceptações telefônicas, quebra de sigilo bancário e análise de declarações de imposto de renda e guias de trânsito animal (GTA). A próxima etapa processual envolve o envio do relatório final da PF ao Ministério Público Federal, que deverá oferecer a denúncia criminal pelos delitos de lavagem de dinheiro, organização criminosa e associação para o tráfico.
Diego Câmara
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.
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