Ponte Frei Paolino desaba em Sena Madureira horas após ser interditada
Obra de R$ 36 milhões inaugurada há 2 anos e meio ruiu na noite de sexta-feira (5); Bombeiros confirmam feridos.
Seu Raimundo Nonato, 52 anos, motorista de van escolar, parou o veículo na margem da BR-317 e olhou para o baixo. Lá embaixo, onde corria o Rio Iaco, a água estava agitada, cobrindo pedaços de concreto e asfalto que, até as 19h da sexta-feira (5), eram a passagem principal de Sena Madureira para o interior do Acre. A Ponte Frei Paolino Baldassari, orgulho da cidade inaugurado há dois anos e meio, acabara de ceder.
"A gente ouviu o barulho de longe. Parecia trovão, mas o céu estava limpo. Quando chegamos perto, vimos aquele buraco no meio. Se tivesse passando gente em cima na hora, era o fim", conta Raimundo, que usa a ponte diariamente para levar alunos da zona rural para a escola estadual no centro. Ele observa os destroços boiando no rio enquanto uma chuva fina começa a cair sobre a cidade.
O desabamento aconteceu poucas horas após o Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária (Deracre) decretar a interdição total do viaduto. Na quinta-feira (4), técnicos notaram que as margens do rio cediam, um processo acelerado de erosão que ameaçava os pilares de sustentação. Com base nesse laudo de risco iminente, o tráfego foi redirecionado para um pontilhão metálico mais antigo, localizado alguns metros abaixo da estrutura nova.
A medida preventiva, tomada após uma vistoria no dia 28 de maio, salvou vidas no trânsito de veículos, mas não impediu o estrondo final e o ferimento de algumas pessoas que estavam nas proximidades no momento do rompimento. O tenente Gustavo Marinho, do Corpo de Bombeiros de Sena Madureira, confirmou o ocorrido e informou que equipes de resgate atenderam as vítimas no local. A gravidade dos ferimentos ainda estava sendo avaliada pela equipe de saúde no início da noite.
Para os moradores do bairro do São Francisco e para os produtores rurais que cruzam a ponte para escoar a produção de borracha e farinha, a preocupação agora se volta para o futuro da obra. Dona Francisca Alves, 46 anos, moradora da região há 20 anos, diz que a construção recente era motivo de alívio, pois a ponte antiga já não suportava o peso de caminhões. "Gastaram mais de 36 milhões de reais, o governador veio aqui cortar fita, disseram que ia durar 50 anos. Nem três aguentou. Agora é o sofrimento de volta no pontilhão", lamenta ela.
O Deracre informou, por meio de nota oficial, que os gestores estão reunidos em emergência para definir as próximas ações. O departamento notificou a Construtora Cidade Ltda., empresa que assinou a execução da obra, para comparecer à sede do órgão. A pasta exige a apresentação de um laudo técnico detalhado sobre o que causou o rompimento das margens e quais serão as medidas de reparação. A obra está sem previsão de liberação e o acesso segue pelo desvio.
O trecho que desabou conecta o perímetro urbano à área rural onde ficam várias comunidades ribeirinhas e propriedades agrícolas vitais para a economia de Sena Madureira. Sem a ponte principal, o trânsito no pontilhão metálico ficou intenso e lento, gerando filas de até três quilômetros na hora de pico, segundo relatos de motoristas que cruzaram o rio na manhã de sábado.
Quem precisa atravessar o Rio Iaco nos próximos dias deve redobrar a atenção e respeitar a sinalização de desvio pelo pontilhão, que tem capacidade de carga limitada. Reclamações sobre a demora na reparação e pedidos de informações sobre o cronograma de obras podem ser feitos diretamente ao Deracre através do telefone (68) 3221-4470 ou pelo ouvidoria online.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



