Projeto da Ueap ensina escolas do Amapá a transformar garrafas PET em impressão 3D
Estudantes aprendem a triturar plástico para criar filamento e imprimir peças em laboratório, unindo tecnologia e reciclagem.
O estudante Lucas Souza, 16 anos, segura o parafuso que acabou de sair da impressora. Não é parafuso de loja de construção, é feito de plástico que ontem era uma garrafa de refrigerante na mesa do almoço dele. A cena acontece no laboratório da Escola Estadual, na zona Norte de Macapá, onde a Universidade do Estado do Amapá (Ueap) montou o projeto de reciclagem e impressão 3D.
Antes, o lixo ia para o aterro sanitário da cidade ou, pior, para os igarapés. Agora, vira matéria-prima técnica. O projeto ensina alunos e professores a triturar as garrafas PET, extrudar o filamento e modelar peças no computador. A ideia é levar tecnologia de ponta para dentro da sala de aula com custo baixo, transformando o que era resíduo em recurso.
A professora de Ciências, Mariana Costa, conta que os alunos mudaram a relação com o lixo depois que a trituradora entrou na escola. "Eles param na rua para pegar garrafa. É briga para ver quem tritura", diz ela, rindo. No laboratório, o cheiro de plástico quente é sinal de atividade. A máquina tritura, esquenta a 200 graus e transforma o retalho em um fio contínuo, pronto para a impressão. É química e física saindo do livro didático.
O professor Felipe Tavares, líder do grupo de pesquisa da Ueap, explica que a iniciativa une sustentabilidade e inovação. "Reciclar deixou de ser apenas uma prática sustentável. Hoje é uma necessidade diante dos impactos ambientais. A impressão 3D é uma ferramenta que pode ajudar a reduzir o descarte irregular de plásticos", afirmou.
Nas escolas atendidas, os alunos produzem de tudo: peças para consertar cadeiras quebradas da sala de aula, botões de controle remoto que sumiram, utensílios de cozinha para o laboratório e até brinquedos para a educação infantil. É engenharia aplicada no dia a dia. O professor conta que o preço das impressoras caiu e fica parecido com o de uma impressora comum de tinta, o que viabiliza o projeto em escolas públicas com orçamento apertado.
A turma aprende a mexer no software de modelagem 3D. Eles desenham a peça, calculam as medidas e enviam para a máquina. A impressora desenha camada por camada, enquanto o filamento — feito ali mesmo, pelas mãos deles — alimenta o bico. O plástico que antes demoraria 400 anos para se decompor no solo agora ganha nova utilidade em minutos.
O projeto já passou por escolas da rede estadual e a ideia é expandir para o interior do Amapá. A universidade treina monitores, que são os próprios estudantes do ensino médio, para multiplicar o conhecimento. "Quando o aluno entende que ele fabrica a ferramenta que ele precisa, ele se empodera", completa Tavares. O conhecimento fica na escola.
Para ter o curso na sua escola, a direção precisa entrar em contato com a Ueap formalmente. A universidade oferece o curso gratuito e leva todo o equipamento necessário para as oficinas, além de acompanhar a implementação durante o semestre letivo. Não é apenas um curso de uma tarde, é uma capacitação estrutural.
Quem quiser saber mais sobre o projeto de tecnologia e sustentabilidade ou sugerir a escola para as próximas turmas deve procurar a Pró-Reitoria de Extensão da Ueap, pelo e-mail proex@ueap.edu.br ou pelo telefone (96) 3242-1200, ramal 203. A reciclagem espera a chamada.
Ananda Rocha
Equipe Nortícia · Manaus, AM. Cobertura jornalística independente do Norte do Brasil.



